Amor impossvel, possvel amor



        Pedro Bandeira

               e

      Carlos Queiroz Telles
                            Resenha



Fernanda tinha certeza que morreria de dor depois que seu
namorado secreto se mudou para o interior. S ficaram pequenas
lembranas: um canudinho de plstico, pequenas anotaes de
uma aula de histria, folha de fichrio... Ento conheceu aquele
rapaz mais velho. E muita coisa foi mudando na sua vida.




                          Contra-Capa


Fernanda tinha certeza e que morreria de dor depois que seu
namorado secreto se mudou para o interior. Restaram pequenas
lembranas e dispersas impresses. Ao tentar decifrar um enigma
matemtico -- "Tenho o dobro da idade que tu tinhas quando eu
tinha a idade que tu tens. Quando tu tiveres minha idade, ambos
teremos noventa anos. Que idade eu tinha quando tu nasceste?" --,
Fernanda estava, sem saber, mudando o rumo de sua vida. O que
so as diferenas numricas diante da intensidade dos
sentimentos?




           A PAIXO POR UM HOMEM MAIS VELHO:

               POSSIBILIDADE OU LOUCURA?
                            Histria do Livro



                  Eramos uma vez...
    ramos uma vez dois escritores. Dois criadores de histrias para jovens,
dois apaixonados pela vida, pela esperana de um mundo melhor, que a f na
fora da juventude oferece para quem no aceita a desesperana. Por isso,
por tudo isso que nos unia, eu, o Pedro Bandeira, e o Carlos Queiroz Telles
ramos amigos.
    At que, em 1993. Carlos Queiroz Telles parou de escrever histrias. Seu
corao, que sempre tinha pulsado forte pela poesia, pelo romance, pelo
teatro, e pelos jovens, parou de bater. A Rita, sua esposa e companheira de
tantas paixes, encontrou em suas anotaes o ltimo romance iniciado por
ele. O romance j tinha um nome: Amor impossvel, possvel amor. Ali estavam
poucos captulos e muitas anotaes. O resto eram reticncias. Ah, a Rita no
podia permitir que toda aquela paixo ficasse pairando no ar sem arremate,
longe dos olhos leitores dos jovens brasileiros! Junto com a Ione Meloni
Nassar, editora e amiga dos dois escritores, procurou-me e props:
    -- Pedro, voc termina essa histria?
    Para mim, o Pedro Bandeira, aquilo era muito mais que um desafio
profissional. Ali estava Fernanda, uma personagem magnificamente criada
pelo talento do meu amigo Queiroz. Mas ali estavam tambm as reticncias,
estava tambm o inacabado...
    Com dor e saudade, passei trs anos lidando com perguntas sem resposta.
Aonde a sensibilidade do Queiroz queria levar essa Fernanda? Como
desenvolver a histria sem alterar as intenes do Queiroz que eu no tinha
como adivinhar? Como aliar dois estilos diferentes?
O tempo foi passando e a Rita e a Ione devem ter pensado que eu tinha
desistido da tarefa. No entanto, sem sequer dar uma satisfao as duas, eu
continuava tentando, escrevendo e reescrevendo, sem encontrar uma trilha,
sem chegar a lugar nenhum. At que, um dia, eu olhei para o infinito com os
olhos da emoo e decidi:
    -- Queiroz, vou em frente do jeito que eu sou, do modo como eu penso e
como eu sinto. Se voc puder, me ajude.
    A deixei Fernanda crescer, tomar corpo, mergulhar no seu amor impossvel
e conquistar seu possvel amor.
    Agora, o livro est em suas mos. A est a apaixonante Fernanda e as
paixes da Rita, da lone, do Luna, o ilustrador que foi amigo do Queiroz por
dcadas, e esto tambm s paixes do Carlos Queiroz Telles e do Pedro
Bandeira.
    Junte a tudo isso tambm a sua capacidade de amar, de apaixonar-se e de
compreender. Assim, talvez juntos todos ns possamos recriar um daqueles
momentos raros, daqueles momentos de encontro que do sentido  vida.
    Obrigado, Rita, por ter me encarregado de tarefa to difcil e to
maravilhosa. Obrigado Queiroz, por ter me permitido tomar uma carona na sua
eternidade. Aqui, nestas pginas, voc est inteiro, vivo e entusiasmado como
voc sempre foi. Enquanto existir algum jovem disposto a abrir as pginas de
seus livros e partilhar das criaes do seu esprito iluminado, voc continuar
vivo.
    At sempre, companheiro!

                                                               Pedro Bandeira

   PS: Para voc, Rita, eu dedico este livro, como sei que o Queiroz tambm
dedicaria.
                      O vizinho da casa 6

    Sem coragem de abrir a cortina, Fernanda espiava a mudana da casa em
frente por uma fresta da janela do pequeno sobrado. Tristeza? Raiva?
Abandono? A menina nem sabia direito o que deveria sentir. Somente a
lgrima que lhe escorria pelo rosto parecia saber por que escorria.
Aquela era a casa 6, de dona Slvia. Casinha simples, encravada na fileira de
sobradinhos geminados e enfileirados ao longo da Vila dos Lilases, uma
vilazinha onde no havia nenhum lils. S as velhas fachadas, de cores pouco
definidas e j desbotadas. A casa 6 tinha sido tambm a casa de Clarissa, sua
melhor amiga. E a casa de Daniel.
"Ai, Daniel..."
    Depois de chegar da escola, naquele incio de tarde cinzenta, escura,
Fernanda tinha assistido a tudo desde a chegada de um tal oficial de Justia
com uns documentos na mo.
"Um oficial de terno e gravata! Os oficiais no deveriam usar farda?", pensava
a menina, enquanto via dona Slvia assinar os papis, de cabea baixa,
evitando olhar para as janelas dos vizinhos, que, como Fernanda, naturalmente
tambm estavam espiando, escondidos atrs de cada cortina da vila.
    Comentava-se, h meses, que aquela tragdia acabaria acontecendo mais
cedo ou mais tarde. Viva, dois filhos para sustentar com a magra penso do
falecido, dona Slvia andava mal de vida. Mudana forada. Um tal de despejo
por atraso de pagamento de aluguis.
    Daniel e Clarissa no faziam companhia  me naquele vexame. J tinham
partido h dias para a casa da av, no interior.
"A nica pessoa da famlia de dona Slvia que vai continuar na vila  o Coto",
pensava Fernanda.
    Sorriu, lembrando-se de que cachorro no  gente. Mas s vezes at
parecia.
No seria possvel levar o vira-lata para o interior, e ele acabou ficando com a
vizinha da casa 4. Durante toda a mudana, Coto ficou trancado no quintal ao
lado. Uivando feito um condenado.
-- Auuuuuuuu... Aiiuuuuuuu... Auuuuuuuu...
"Condenados no uivam, a no ser que sejam cachorros condenados a ficar
para sempre longe dos donos..."
Depois de assinar os papis, dona Slvia aconchegou-se no casaco pesado.
Ergueu a cabea por um momento, observando o motorista e o ajudante que
comeavam a trazer a mudana para o caminho. Seus olhos estavam
vermelhos. Mas havia dignidade neles.
    Era um caminho simples, desses de feira. Tambm, a mudana era to
pequena! Camas, colches, sof pudo. mesa, cadeiras, televiso, geladeira
velha, fogo, poucos caixotes e trastes de cozinha. Em meia hora, a casa
estava vazia e todos os pertences da famlia despejada amarrados com cordas
em cima do caminho descoberto. O motorista subiu a bolia e buzinou,
chamando a dona da mudana. Dona Slvia dava uma ltima olhada naquela
casa onde havia morado com os filhos por dez anos.
Fernanda tinha quatro. A menina lembrava-se da alegria da chegada de uma
nova amiga, da mesma idade dela. Clarissa. Que agora partia. Talvez para
sempre. Clarissa e Daniel, que j tinha cinco anos quando aquela famlia
chegara  vila.
Do outro lado da rua, Fernanda viu dona Slvia estender o brao para entregar
as chaves da casa ao oficial de Justia. At aquele momento, os vizinhos
tinham feito de conta que no estava acontecendo nada na casa 6, mas o
gesto de dona Slvia pareceu despertar a todos. A um s tempo, as portas se
abriram, porque ningum podia mais adiar o momento triste da despedida. E as
moradoras da vila foram chegando meio sem graa, cada uma com um pacote,
uma cartinha, uma lembrana.
Dona Slvia, ao lado do caminho, recebeu a todos com um pequeno sorriso.
Leve isso, dona Slvia.  para a viagem. Por favor, aceite.
Obrigada.
Entregue esta carta para Clarissa. Este disco eu comprei para o Daniel. Pea
para eles escreverem.
Peo, sim. Obrigada.
Com a palma da mo, Fernanda arrancou a lgrima da face e despencou
escada abaixo, apertando na mo o bilhete que tinha escrito para Clarissa, em
que prometia visitar a amiga. Quem sabe nas frias...
Quando chegou ao lado do caminho, sua me j estava l, caada com dona
Slvia. Nenhum dos moradores da casa 12 tinha aparecido para a despedida.
"A casa da Graziela, aquela galinha! Fingida! Vive fazendo de conta que 
minha amiga. Deus me livre que os garotos pensem que eu me dou com ela! A
gente tem a mesma idade, mas ela j est com um corpo! E usa cada roupa!
Metade est sempre  mostra. Ou a parte de cima, ou a parte de baixo. A tonta
s se preocupa em parecer mais velha!"
Aproximou-se de dona Slvia, estendeu-lhe o bilhete e abraou-a, apertado:
Este bilhete  para. Clarissa, dona Slvia. Por favor, entregue para ela...
Obrigada, Fernanda.
Para Daniel, Fernanda no havia trazido nada.
Dona Slvia acenou uma ltima vez para os vizinhos e embarcou na cabina
junto com o motorista e o ajudante. O caminho deu partida e foi embora,
deixando na ruazinha da vila aquele grupo de pessoas que acenava
timidamente, sem coragem para fazer qualquer comentrio. Afinal, aquilo
poderia ter acontecido com qualquer um deles.
--      Ouvi dizer que  a prpria dona da casa que vai se mudar para c --
arriscou-se a sussurrar algum, depois que o grupo comeou a se desfazer.
--Que nada!--rebateu outra voz. --A dona dessa casa deve ser uma
capitalista, dessas que tm mais de vinte prdios de aluguel!
--      Puxa, ainda bem que eu consegui essa casinha pelo BNH! Faltam s
doze anos para pagar. Se fosse hoje, nem sei!
O oficial de Justia trancou a porta da casa e olhou para a me de Fernanda:
A senhora  a vizinha da frente?
Sim. Meu nome  Lusa.
Por favor, dona Lusa, guarde estas chaves -- pediu o homem, estendendo a
mo. -- A senhora pode entregar para a proprietria? Ela vai passar por aqui
amanh.
Dona Lusa hesitou um pouco, mas acabou pegando as chaves sem nada
dizer. O homem falou baixinho:
--      Eu sei que esse meu trabalho  desagradvel, mas tenho de ganhar a
vida, no ?
Virou as costas, meio sem jeito, entrou no carro e foi-se embora. L no quintal
da casa 4, Coto gania sem parar:
--     Auuuuiiuuu... Auuuuuuuu... Auuuuuuuu...
                            Adeus, Daniel ...


Fernanda estava sozinha, como gostava de ficar para saborear sua
adorao por Daniel. Assegurou-se de ter trancado a porta do quarto.
Debaixo da cama, bem no fundo, l estava  caixa de sapatos secreta. Ela mesma
arrumava e varria o prprio quarto. Por isso, a me nunca descobriria sua Arca dos
Tesouros de Daniel. Abriu a caixa e foi retirando lentamente, um a um, todos os
pequeninos pedaos de Daniel que conseguira colecionar. Primeiro, e acima de tudo, a
foto. Uma foto pequena, de carteira de estudante, furtada do quarto de Clarissa. A foto j
tinha uns dois anos, e Daniel mudara muito. Mas era o mesmo Daniel.
Em seguida, um envelopinho plstico, transparente, com cascas de lpis sadas do
apontador de Daniel. A lembrana j estava meio esfacelada, mas estivera nas mos
de Daniel, no estivera? Por isso, valia muito. Uma folha do fichrio de Daniel,
surrupiada s escondidas. Um trecho de anotaes de uma aula de histria. Releu
pela ensima vez, saboreando a letra do garoto. "Garranchos! Tambm, letra de
homem, n?" A fita cassete com a msica preferida de Daniel, que Fernanda no podia
ouvir, pois no tinha toca-fitas. Mas que sabia de cor, acorde por acorde, nota por
nota, verso por verso, palavra por palavra. No fundo da caixa, estava o canudinho de
refresco. Daniel pusera os lbios naquele canudinho! Fernanda lembrava-se
perfeitamente de cada momento daquele lanche. Pegou delicadamente o canudinho,
como se o acariciasse. Lembrou-se de uma tarde distante, os trs ainda muito
pequenos. Curiosos, revelavam-se mutuamente a prpria nudez, e Daniel fora o
primeiro menino que Fernanda vira nu. O primeiro e o nico. E a pequena Fernanda
pudera verificar que as meninas e os meninos eram diferentes. Entre assombro,
fascinao e uma ponta de frustrao, Fernanda descobrira na ocasio que Daniel
tinha um pedacinho de carne a h mais do que ela e Clarissa. Durante um bom tempo,
para ela aquele pequenino apndice era um atributo exclusivo de Daniel. S mais
tarde Fernanda aprendera que todos os meninos tinham um penduricalho igual
quele.
"Aquele pedacinho de Daniel deve ter mudado bastante nesses anos."
Tocou os lbios na ponta do canudinho, suavemente, como se o beijasse. Chupou
lentamente. Da outra ponta, s veio ar.
"Daniel..."
Arrepiou-se, como sempre acontecia ao recordar-se daquela arde to distante. Sentiu
o rosto quente, sentiu-se umedecer. Sacudiu a cabea e deixou o canudinho sobre a
cama. Recolheu mais um dos tesouros. O guardanapo de papel. O seu garoto tinha
passado aquele guardanapo na boca, na mesma tarde do lanche inesquecvel.
Beijou o guardanapo com ternura, procurando os lbios de Daniel.
"Pena que homens no usam batom. Nem sei exatamente onde os lbios de Daniel
tocaram neste guardanapo."
Por fim, novamente a foto. Olhar para ela trouxe-lhe de novo um vazio no estmago,
que subiu, subiu, e empurrou a lgrima de saudade que queria explodir. Foi uma
lgrima grossa, que caiu exatamente em cima da foto. O rosto de Daniel estava
molhado.
"Ai, Daniel! Ser que voc tambm est chorando por mim neste momento? Ai, por que
vocs tinham de ser despejados? Despejaram voc para longe de mim, Daniel."
-- Hora de dormir, Fernanda! Amanh tem aula!
De fora do quarto, a voz da me. As lembranas voltaram para a caixa e a caixa voltou
para debaixo da cama. Abraou-se ao travesseiro, apertado, como gostaria de abraar
Daniel.




Foi difcil adormecer. Aconchegados sob as cobertas, os pensamentos de Fernanda
vagavam em torno do despejo de dona Slvia...
"Dinheiro! Uns tm muito, outros tm mdio, alguns tm pouco e muitos no tm nada.
Dona Slvia no tinha muito, mas dava para viver, pagar o aluguel, sustentar os filhos...
Tudo com a penso do marido, mais os doces que ela vendia. E, de repente, rua! Ai,
a gente tambm  to pobre quanto a famlia de dona Slvia. Ainda mais agora, com
a doena de papai..."
... mas voltava sempre  lembrana doda de Daniel.
"Dani-Dani-Daniel! Ser que eu nunca mais vou te ver? Ai, Daniel! O garoto de quem
eu sempre gostei tanto... e que nunca me notou. Eu era apenas a amiguinha da sua
irm, no ? E agora, Daniel? Voc nunca, nunca vai ficar sabendo. Nunca, nunca nin-
gum soube. Nem Clarissa. Ai! Quantas vezes eu esperei um olhar seu. um olhar
diferente para o meu lado... O jeito com que eu sempre te olhei, meu querido..."
Mas Fernanda sabia que isso no era verdade. Seu olhar jamais havia dado uma
pista, por pequena que fosse, que fizesse Daniel saber de sua paixo. Ningum,
ningum jamais percebeu. "E agora? Voc foi para longe, para muito longe, querido. E
eu vou ficar aqui, esperando... Esperando? Voc nunca voltar! Daniel..."

Lentamente, viu-se perdida numa mata escura, assustadora. Fazia frio, muito frio. E
ela estava nua.  sua frente, erguia-se uma alta muralha de espinhos. Fernanda sabia
que tinha de passar por aquele muro. Mas como?
A parede de espinhos comeou a mexer-se. A pele nua de Fernanda arrepiou-se.
Frio e medo. Medo e frio. Medo e medo. Abrindo a muralha de espinhos, surgiu
Daniel. Daniel!Mas era ainda o menino de cinco anos, exatamente do mesmo modo
que Fernanda o tinha visto pela primeira vez. Estava nuzinho e parecia estar mais
amedrontado do que ela. Fernanda olhou admirada aquele menino. Daniel estava todo
arranhado pelos espinhos, com a cara cheia de esparadrapos e mertiolate. Parecia um
fantasma pintado de vermelho.
Fernanda queria falar com ele, saber o que tinha acontecido, mas sua voz no saa.
Tomou-o no colo, ninando-o como se acalenta uma criana. Mas Daniel comeou a
crescer, a crescer sem parar. Foi ficando grande, enorme, mas sem modificar sua carinha
de menino de cinco anos. Um menino imenso, maior que um homem feito.
Assustada, Fernanda largou-o. 0 menino ps-se de p. Sua expresso modificava-se.
Era agora a expresso de uma personagem defume de terror. No rosto, um sorriso
macabro. Fernanda lembrou-se da histria do tal Gulliver que foi parar num pas de
gente muito pequena. Daniel parecia Gulliver, e ela, cada vez menor, era uma
donzela indefesa do mundo de Lilliput. Sorrindo, assustador, Daniel comeou a avanar
para ela. Era agora maior do que qualquer Gulliver, e seu p levantava-se, pronto para
soltar todo o peso do corpo em cima da menina.
-- Socorro! Ele vai me esmagar! Ele vai pisar em mim como se eu fosse uma barata!
Socooorrrooooo...

Acordou sentada na cama, suando, com os olhos arregalados de medo e o corao
pulando mais do que um sapo maluco. Do quintal da casa 4, um som conhecido fez-
se ouvir:
--Auuuuuuuu! Auuuuuuu! Auuuuuuuu!
Coto estava com o mesmo problema de Fernanda. Saudade. Uma saudade que
doa e no tinha jeito.
"Pobre cachorrinho! Deve estar pensando em Daniel..."
Sentiu uma vontade incontrolvel de uivar tambm, com a mesma saudade de Coto.
Mas as pessoas no conseguem desabafar suas dores como os ces.
"Acho que  mais fcil ser cachorro do que ser gente."
No quintal da casa 4, Coto continuava a uivar.
--Auuuuuuuu! Auuuuuuu/Auuuuuuuu/
                  A mulher com a sombrinha


-- Que raiva! -- desabafava dona Lusa, servindo leite para Fernanda. -- Quero s
ver a cara dessa dona da casa 6 depois de fazer uma coisa daquelas com a Slvia!
Seu Joaquim levantou os olhos da xcara de caf e falou, ainda com a boca cheia:
--       Culpa do governo, Lusa. Esses polticos sobem o preo do aluguel, o preo de tudo.
Mas as penses das pobres vivas e as aposentadorias de quem passou a vida suando no
batente, isso ningum se lembra de aumentar. Polticos! Governo! Bah!
Fernanda no palpitou naquela conversa. Mas, para ela, a culpa era mesmo s daquela
maldita dona da casa 6. Sentia dio daquela mulher que nunca vira. Por causa dela, dona
Slvia teve de mudar-se para o interior. E ela perdera seu namorado secreto.
"Ai, que saudades de Daniel! Maldita proprietria! Maldito homem da Justia!"
Os comentrios do pai, contra os polticos e contra todo mundo, reforavam os pensamentos de
Fernanda. Coitado do pai! Afastado do emprego por doena. O que a famlia recebia para
sustentar-se vinha da tal de "caixa".
"Meu pai est numa caixa... como minhas lembranas de Daniel..."
Nesse momento, a campainha interrompeu as preocupaes de Fernanda. Dona Lusa levantou-
se da mesa do caf, de m vontade:
--       Deve ser a tal mulher que botou dona Slvia na rua da amargura.  agora!
-- V l o que fala, hen, Lusa? -- advertiu o marido.
-- Pode deixar, Joaquim. Educao eu ainda tenho. Fernanda foi atrs. Parada na
soleira da porta, uma mulher mais velha que sua me sorria docemente, segurando
uma bolsa e uma sombrinha.
--       Bom dia. A senhora  dona Lusa? Desculpe se incomodo a essa hora, mas me
disseram que as chaves da casa 6 foram deixadas aqui.
Fernanda percebeu que o sorriso da mulher desarmara a m vontade da me. -
-- As chaves esto aqui, sim. A senhora no quer entrar?
-- Oh, eu no queria incomodar. Sabe? S vim ver se est tudo em ordem...
Dona Lusa passou as mos pelo avental e insistiu:
--Mas eu fao questo. Entre! O caf foi coado ainda agorinha.
A mulher sorriu, de olhos baixos.
-- Bem, se a senhora insiste...
-- Fernanda, faa sala para a dona...?
-- Teresinha. Meu nome  Teresinha.
--       Pois fique  vontade, dona Teresinha. Volto num instante.
Sumiu em direo  cozinha.
Fernanda e dona Teresinha ficaram de p, na sala, ambas sem saber o que dizer.
-- E voc, como se chama?
-- Fernanda.
-- Voc era amiga de dona Slvia e dos filhos dela?
-- S-sim... -- respondeu Fernanda, meio sem graa.
-- Gente boa, no ?
Cada frase demorava um sculo, e Fernanda pensava que .aquela frgil mulher no
correspondia em nada  imagem de uma perversa capitalista que bota no olho da rua
uma famlia rf. A me voltou da cozinha com uma xcara de caf fumegante.
--     Tome, por favor, dona Teresinha.
--     Obrigada. Um cafezinho com esse frio at que vai bem...
A me apontou o nico sof onde os trs assistiam  televiso.
Sentada na beiradinha, a mulher falou, com uma gostosa candura no olhar:
-- Sabe, dona Lusa, eu sofri muito com essa histria toda. Eu queria ajudar dona Slvia
e tentei de todos os jeitos ver se conseguia um modo de deixar dona Slvia na casa.
Mas acontece que eu tambm fiquei viva h pouco tempo e agora preciso da casa
para morar com meu filho. Bruno. Bruno  o nome do meu filho. Ele Estuda de noite e
d aulas de dia para a gente se sustentar.
-- Ele  professor? -- perguntou dona Lusa.
  -- Sim, mas  difcil encontrar emprego na rea que ele escolheu. Bruno fez a
faculdade de letras e especializou-se em latim, veja s! D aulas particulares de
francs e de ingls na casa das pessoas. Est fazendo mestrado na faculdade, mas o
sonho dele  ser diplomata.
Dona Lusa puxou um pouco mais de conversa:
-- E a senhora s tem esse filho?
-- S. Bruno tem vinte e oito anos j.  um timo filho. Nem sei o que eu faria sem
ele...
"Vinte e oito?", pensou Fernanda. "Que velho!"
--     Eu tambm s tenho a Fernanda -- disse dona Lusa.
-- Uma tima menina. Mas como ter mais filhos hoje em dia? A vida anda pela hora da
morte, dona Teresinha. Pela hora da morte!
Dona Teresinha pigarreou e levantou-se, estenclendo-lhe a xcara ainda pela
metade.
--     O cafezinho estava timo, dona Lusa. Agora, se a senhora me d licena...
A me de Fernanda tirou as chaves do bolso do avental.
-- Oh, mas  claro! Aqui esto as chaves. Se a senhora precisar de mais alguma
coisa, no faa cerimnia, dona Teresinha. Vizinha  pra essas coisas.
-- Obrigada. A senhora  muito gentil. E sua filha  uma linda garota, dona Lusa. Acho
que vamos ser boas vizinhas. Bom, vou olhar como est a casa. Acho que ela precisa
de uma boa pintura, no ?
--  verdade -- concordou a me. -- Essas casas so bem antigas.
--J vou indo -- despediu-se a mulher. -- Dou uma espiada na casa e volto para
devolver-lhe as chaves. A senhora no se incomoda de guardar para mim as contas
que chegarem, no ?
--     Oh, sim,  claro! Pode deixar que eu tambm dou uma espiada de vez em
quando para ver se est tudo em ordem...
Dona Teresinha saiu e as duas viram-na atravessando a viela, com passo mido.
--     Acho que vamos ganhar uma vizinha muito simptica -- comentou a. me, com
o olhar perdido, revelando uma reviravolta em sua avaliao sobre a tal "capitalista". --
Pobre dona Teresinha...
Seu Joaquim tossiu l da cozinha:
--      E ento, Lusa?
--J vou, Joaquim. Sabe? Essa dona Teresinha at que...
As vozes desapareceram como sussurros na audio de manda. A imagem
suave da dona da casa 6 tinha modificado seu humor. Gritou para a cozinha:
  -- Tchau, me. Tchau, pai. Estou saindo para a escola.
No caminho, ainda procurava o responsvel pela perda da colega e do namorado
secreto.
"
  Se a culpa no  de dona Teresinha... ento papai tem razo: Daniel s precisou se
mudar da vila por culpa do governo. Maldito governo!"
                          Visita ao passado

Querida Clarissa,

J faz quase dez dias que vocs se mudaram e eu estou morrendo de
saudades. Todo mundo aqui na vila sente muito a sua falta. Nos primeiros
dias, nem parecia que sua famlia tinha ido embora. Um monte de vezes
eu sa para procurar minha amiga Clarissa e s depois me lembrei que...
que coisa! Como a gente estava acostumada uma com a outra!/ Isso 
que  amizade!
Outro dia apareceu por aqui a mulher que vai morar na casa 6. Ela se
chama Teresinha e tem um filho que estuda na faculdade. Um velho. J
tem vinte e oito anos!Eu estava com raiva dela por causa de tudo o que
aconteceu, mas acabei achando a mulher simptica. Ela tambm  viva,
como a sua me, e precisava mesmo da casa. Eu quase fiquei com pena
dela. No sei muito bem o que pensar nessas horas. S sei que no queria
que vocs tivessem se mudado.
Quem parece que est se acostumando na casa 4o Coto. Depois que
vocs foram embora, ele deu de uivar todas as noites. Um auuuu muito
comprido e muito sentido. Saudades, no ?Mas acho que ele est sendo
bem-tratado.
E a, como  que vo as coisas? Que tal a escola nova e a turma da
cidade? Quero que voc me escreva falando de tudo. Da cidade, da casa
de sua av, dos novos amigos, de tudo! A turminha da vila e da escola
soube que eu ia te escrever e esto mandando mil beijos e abraos.
A antes que eu me esquea: sabe da maior? A assanhada da Graziela anda agarrada
com o Tonho! Os dois ficam namorando tarde da noite no escurinho do fundo da vila.
E a me no diz nada!
Mame tambm est mandando lembranas. Um beijo muito grande para voc, para
sua me, e um abrao para o Daniel. Qualquer dia a gente se encontra de novo. Me
escreva, me escreva,me escreva!

Sua eterna amiga,

Fernanda




Fernanda saiu de casa para levar a carta ao correio. Na viela, a sua frente, l estava a
casa 6, descascada, olhando para a menina.
"Que tal dar uma espiada l dentro?"
Voltou at a cozinha. A chave estava em cima da geladeira.
"Vou l! Ningum vai perceber."
Atravessou a ruazinha e enfiou a chave na porta da casa 6 com cuidado, como se
fosse uma ladra. A luz do dia revelou o interior vazio.
"Nossa! Com os mveis, essa sala parecia bem maior! E que sujeira!"
Arrepiou-se ao pensar que at rato poderia estar andando solto por ali. Era a primeira
vez que ela entrava numa casa abandonada. No se sentia mais como uma ladra.
Sentia-se como se estivesse participando de um filme de fantasmas.
"Ali ficava o sof e ali a televiso..."
s vezes ela vinha quela sala ver a novela das seis com Clarissa. Lembrou-se como as
duas se divertiam tentando adivinhar o final da histria.
"O final da novela! O que terminou agora foi a minha novela!"
Deu uma olhada na cozinha.
"Que coisa mais triste  uma cozinha vazia!"
Sem fogo nem geladeira, apareciam todos os ladrilhos quebrados. A casa ia
precisar de uma reforma.
"Puxa... e dona Teresinha disse que est curta de dinheiro! Como vai se arranjar para
consertar tudo isso?"
O armrio da pia ficara aberto. Parecia uma boca sem dentes.
Resolveu subir para dar uma espiada nos quartos. Escada velha, igual  de sua casa.
Rangia feito uma porteira.
"Com degraus assim, todo mundo fica sabendo quando algum est subindo ou
descendo."
O quarto da frente tinha sido o de dona Slvia. Clarissa e Daniel dormiam no outro.
Igualzinho ao seu. Todas as casas da vila tinham a mesma planta, s que a da casa 6
era ao contrrio, como em um espelho, pois ficava em frente  sua.
Examinou o quarto vazio e lembrou-se que a cama de Clarissa ficava do lado da janela. A
de Daniel perto da porta, bem encostada  parede.
"Ai, que saudades desse garoto!"
Imaginou a possibilidade de Daniel estar ali, naquele momento. S ela e ele. Arrepiou-
se. Quantas vezes ela havia querido que Clarissa sumisse para poder ficar sozinha
com Daniel!
"E se ele aparecesse agora? E entrasse correndo, subisse a escada e me abraasse
forte... e me beijasse! E dissesse que voltou s para me ver! E me beijasse de novo! E
me beijasse mais ainda! E mais! Ai! Ai, ai e ai!"
Olhou para o retngulo vazio onde ficava a cama de Daniel. Sacudiu a cabea,
espantando a idia de ver-se deitada naquela cama... com ele!
Acima do espao da cama, a parede, com retngulos mais claros e marcas de fita
crepe.
"Aqui ele pendurava cartazes de futebol. E de artistas."
Lembrou-se do cartaz de um filme com a Snia Braga. Com os peites de fora. Com as
duas mos, tateou seu pequeno busto.
"... se a Snia Braga  o tipo dele, como  que eu podia concorrer? Ei, que papel
amassado  esse?"
Abaixou-se e pegou o papel jogado no canto. Era uma bolinha formada por duas
metades rasgadas de uma foto.
"Deixa eu ver que diabo  isso. Um retrato da Graziela! Com dedicatria e tudo: Para o
menino mais lindo da vila, com um beijo ardente... ARDENTE!... da sua
Graziela!Cachorro!"
A raiva queimava-lhe o rosto.
"Quer dizer ento que aquele miservel andava com a Graziela? E eu sofrendo com medo
de falar com ele! Burra! Besta! Tonta!"
Ia sair, furiosa, quando lhe ocorreu uma atenuante:
"Mas, espera a. Se ele no levou o retrato,  sinal de que no gostava dela. Bem feito
para aquela galinha assanhada! Vou picar o retrato em mil pedacinhos! Ou melhor,
vou dizer para ela que achei a fotografia rasgada e jogada por a e devolver assim
mesmo, bem suja e amassada. Ela vai morrer de vergonha! Ah, se vai!"
      Cotovelo machucado, corao sofrido

A vingana adoava-lhe a boca, como chocolate, quando Fernanda desceu para o ptio do
recreio.
   L estava Graziela, toda gostosona, rindo no meio dos garotos. Como  que eles
podiam ficar to fascinados por aquela penosa? O rosto de Graziela estava fortemente
maquiado, como se ela estivesse para uma festa. Ou como se no tivesse apenas catorze anos.
Sempre rindo, a cabea de Graziela jogava-se de um garoto para outro, e seus cabelos
longos esvoaavam como se fossem lnguas procurando lamber o rosto dos garotos.
" agora!" Chegou-se para a roda como se fosse por acaso.
--      Oi, Graziela.
Graziela olhou para Fernanda como se tivesse sido desrespeitada. alguma lei que lhe proibisse a
companhia de pessoas do mesmo sexo.
--      Hum?Oi.
Saboreando por dentro o provvel desfecho do seu plano, Fernanda estendeu para Graziela
a foto rasgada no meio.
-- Sabe, Graziela? Daniel deve ter jogado no lixo esta sua foto. Eu achei que devia
devolv-la a voc.
-- O qu?!
Quando Graziela a encarou, Fernanda sentiu-se como se estivesse encostada a um muro, em
alguma guerra, sendo fuzilada por traio.
Avermelhando-lhe o rosto, o dio de Graziela explodiu em cima de Fernanda:
-- Daniel jogou fora a minha foto? Ah, ah! Fui eu que dei o fora nele, sabia? Eu que
no agentava mais aquela paixo boboca dele! A gente namorou um tempo! Todo
mundo sabia. E voc bem queria ter sentido dentro da boca aquela linguona quente do
Daniel, no ? Como eu senti tantas vezes! Mas eu acabei enjoando. Ele beijava bem,
 verdade, mas eu tinha mais o que fazer do que ficar grudada naquele fedelho como
ele queria! Voc achou o qu me trazendo essa foto rasgada? Fui eu quem rasgou! Do
Daniel no quero mais saber nem pintado! V se te enxerga, sua invejosa!
A palidez da surpresa paralisava Fernanda.  sua frente, via Graziela terminar o
discurso e, como bruxa de histria infantil, arrematar as ofensas com uma gargalhada
cristalina, debochada. Arrancou a foto da mo de Fernanda, picou-a e jogou-lhe os pe-
dacinhos no rosto. Os garotos em torno sorriam, sem jeito a princpio, mas logo
gargalhavam, juntando-se  impiedade de Graziela. Ainda rindo, a menina enlaou os
braos de dois deles e afastou-se, quase os arrastando.
Fernanda sentiu como se todos os alunos do ptio a estivessem olhando, e a algazarra
normal de um recreio de colgio apresentou-se a ela como um coro de gargalhadas.
Quis morrer, quis que o cimento do ptio se abrisse e a engolisse como em filme de
terremoto. Virou as costas e correu para o banheiro. Trancou-se e descarregou a
vergonha em lgrimas.

O resto das aulas passou como se o lugar dos professores, o ao quadro-negro,
estivesse vazio. Fernanda no escutou nem uma palavra. Em seus ouvidos ressoava a
gargalhada de Graziela, o seu rosto a vergonha estava marcada e em seu corao
queimava como brasa a dor de perder um Daniel que nunca fora seu.
Agentou-se como pde. Quando voltou para casa, estava certa de poder disfarar
o inferno que lhe queimava no ntimo.
Sentou-se  mesa para o almoo, disposta a, mais uma vez, reprimir dentro de si tudo
o que sentia.
Com um rabo de olho e a colher de arroz no ar, dona Lusa perguntou:
-- O que foi que aconteceu, filha?
-- Nada, nada... -- Fernanda continuou tentando disfarar, ilhada, envergonhada,
com uma vontade doida de chorar.
-- Por que no me conta o que aconteceu? -- insistia a me.
Seu Joaquim entrou na conversa:
--O que foi? Que cara  essa, Fernanda? Problemas no colgio? Nota baixa, no foi?
--     Eu j disse. No foi nada. Eu...
A raiva aumentou ainda mais quando percebeu que no ia conseguir segurar o
choro. No podia chorar diante dos pais. Detestava parecer criana. Levantou-se da
mesa num arranco e subiu as escadas feito um rojo. Mas, no meio da escada, no
conseguiu segurar um soluo forte que na certa pde ser ouvido pelos pais l embaixo.
Fechou a porta do quarto com fora e, com a cara enfi-la no travesseiro, chorou tudo
o que tinha para chorar.
Um minuto depois, a porta abriu-se suavemente. Muito de teve, dona Lusa entrou e
sentou-se na cama, ao seu lado:
--Desabafa que  melhor, minha filha. O que foi que aconteceu?
-- Foi o... Daniel.
A me no disse nada e seu silncio funcionou como uma ajuda para Fernanda
continuar lavando a alma. Ela no podia contar para a me o caso do retrato. E menos
ainda que tinha ido mostrar a fotografia amassada para a estpida da Graziela. En-
to, com a cara lavada de tanta lgrima e olhando para a parede, desabafou:
--      S hoje eu descobri que Daniel e Graziela estavam namorando ha um tempo!
Namoro sem-vergonha, de beijo na boca e amasso! Todo mundo sabia, menos eu!
-- E como  que voc ficou sabendo? -- perguntou a me.
-- A Graziela me jogou tudo na cara! Com detalhes! Ela falou...
--Voc gostava muito dele, no , minha filha?
-- Voc sabia?
-- E quem  que no sabia? Voc no tirava os olhos dele, Fernanda. Mas Daniel j
foi embora e nem adianta sofrer porque ele andou namorando com essa ou com
aquela. Eu sei como so essas coisas. Logo, logo voc vai se esquecer desse
menino.
Fernanda no falou mais nada. Abraou a me bem apertado, sem medo de parecer
criana que pede colo. Aos poucos, sentiu que sua tristeza j nem era mais com
Daniel. Tudo o que ela queria era encontrar uma maneira de vingar-se da Graziela.
A noite estava quente e muito escura. Ento ela saiu de casa para visitar Clarissa.
Quando estava atravessando a vila, algum pulou de trs de um cano, agarrou-a e
comeou a abra-la e a apert-la e a beij-la e a cham-la de...
-- Gra, Graziela, Gracinha!
Ela no sabia quem era e queria fugir, escapar, gritar, mas podia ser Daniel. .. E a, se
fosse ele... De repente acenderam-se os faris de todos os canos e ela se viu pelada no
meio da vila. Todos a espiavam pelas janelas e davam risada.

Acordou suando de tanto medo.
"Menino bobo! Garoto besta! Moleque burro. Ah, que nada! Boba, besta e burra sou eu
que passei anos gostando do Daniel sem conseguir falar nada. Ele foi embora e eu
fiquei aqui, sozinha. Ah, eu odeio a Graziela! Odeio! Odeio! Odeio!"
Do quintal da casa 4 vinha o lamento triste do Coto:
--Auuuuuuuu... Auuuuuuuu... Auuuuuuuu...
                          Cabea em Obras

Comearam a reformar a casa 6. Chegou o caminho com alguns sacos de
cimento, areia e latas de tinta. Pelo jeito, eram s uns consertinhos mais a
pintura. Pouca coisa.
Quando a pintura externa estava chegando ao fim, era a nica das casas da vila
que parecia nova. A casa de Fernanda, que vergonha! Estava com a pintura toda
bicada, e volta e meia  me resmungava:
--      Quando seu pai voltar a trabalhar, a gente manda pintar a casa.
Fernanda duvidava. A doena do pai estava com cara de que ia demorar. Comeara
com uma canseira sem fim, falta de ar, dificuldade para subir a escada... Depois vieram
as dores no peito. O medico recomendou repouso durante um ms, mas no
adiantou. A ele foi parar na tal de caixa. Coisa do governo. Fernanda sabia que ele
estava recebendo muito menos do que ganhava na firma.
--      Renovaram minha licena por mais trs meses -- reclamava ele depois do
ltimo exame mdico.
Quem estava tendo de se virar era a me. Alm de tentar manter a casa com o
salrio reduzido do marido, ainda tinha de agentar-lhe o mau humor. Tambm, o
coitado no tinha nada para fazer. Ficava o dia inteiro na frente da televiso.
Fernanda j se oferecera para procurar algum servio de meio perodo, mas o pai
tinha ficado uma fera:
--       Voc trate de terminar seus estudos e se preparar para o vestibular! Daqui a
trs anos quero ver voc na faculdade. Enquanto eu estiver vivo, mulher nenhuma
desta casa vai precisar trabalhar!
-- Calma, Joaquim. Voc no pode ficar nervoso -- a me cortara a bronca.
Fernanda no queria ofender o pai, mas achava que ele tinha se sentido meio intil
com sua idia de arrumar um emprego. Bobagem... Tinha horas em que ela
pensava que o pai estava perdido no tempo. Nunca deixara que a me trabalhasse
fora de casa e mesmo agora, com esse aperto danado, continuava o teimoso de
sempre.
--       Essa vila toda est um lixo! -- comentava seu Joaquim, cada vez que olhava
para a movimentao na casa em frente. -- Logo que eu voltar ao trabalho, vou dar
um jeito de tirar a gente dessa velharia! Vendo isso aqui e nos mudamos para um
apartamento!
Dona Lusa no concordou:
--       Que  isso, Joaquim? A casa  nossa.  velha, mas  nossa. Nossa primeira
casa. Foi aqui que Fernanda nasceu. Eu gosto muito. -- Voc no gosta Fernanda?
A menina sorriu. Sabia que o plano de mudar para uma casa maior no passava de
um sonho do pai. Quando ele voltasse ao trabalho? Ser que o pai ia voltar um dia ao
trabalho?
Pensando bem, agora que Daniel tinha ido embora, ela estava de acordo com o pai. A
vila tinha mesmo cara de gente velha. Fernanda achava at que gostaria mais de morar
num apartamento, como a maior parte das meninas da classe. Em alguns prdios
tinha at piscina e salo de festas!
No fim da tarde, ela resolveu xeretar a reforma da casa 6. Depois que o pintor j tinha
ido embora, pegou a chave e foi dar uma espiada, enquanto a me preparava o jantar.
Que surpresa! Pintada, clarinha, a casa parecia muito maior do que era antes. At
uma janelona tinha sido aberta na cozinha. Estava muito mais iluminada. E o que era
aquilo ao lado da tomada onde antes ficava ligada a velha televiso de dona Slvia?
Uma tomada estranha, com vrios furos. Era... uma tomada de telefone!
"Nossa! Eles vo ter at telefone!"
Ficou com uma pontinha de inveja. Queria que sua casa tambm fosse assim,
iluminada e que tivesse telefone.
"E l em cima? Como ficou? Vou ver..."
Quando estava na metade da escada, ouviu o barulho de algum abrindo a porta.
Como no estava trancada, a pessoa entrou e perguntou:
-- Tem algum a?
Era uma voz de homem, e ela ficou com medo. Podia ser algum desconhecido, um
bandido, um tarado!
--     Tem algum a?-- insistiu a voz.
No havia como esconder-se. O jeito era descer e tentar explicar por que  que
estava ali.
--J estou descendo -- foi s o que conseguiu dizer.
Quando viu quem era, acalmou-se um pouco. Um moo bem vestido, segurando uma
pasta embaixo do brao. Olharam-se um tempo, sem saber bem o que dizer.
--     Voc mora aqui na vila, no ? -- perguntou o rapaz.
Ela fez que sim com a cabea. Ele chegou mais perto e estendeu-lhe a mo com um
sorriso:
--     Meu nome  Bruno. Sou filho da dona Teresinha. No ms que vem a gente
vem morar aqui.
Sem saber muito bem o que fazer, Fernanda apertou-lhe a mo.
--     Eu sou Fernanda...
S no explicou o que estava fazendo na casa. Isso, felizmente, ele no perguntou.
Mas, notando que ela estava sem graa, esticou o papo:
-- O que voc est achando da reforma?
-- A casa vai ficar muito bonita -- foi tudo o que ela conseguiu falar. E logo emendou:
-- Agora, com licena, eu tenho de ir ajudar minha me. At logo...
Tratou de passar rapidinho pelo moo que a olhava com uma cara de quem est se
divertindo com alguma coisa. Quando ela j estava na calada, ouviu uma frase que
lhe esquentou as orelhas:
--     No esquea de levar a chave. Est na fechadura da porta.
"Que vergonha, meu Deus!"
Sem tirar os olhos do cho, pegou a chave e saiu correndo para casa. No podia
jurar, mas tinha quase certeza de que o tal Bruno cara na risada assim que ela lhe
voltou s costas.
"Eu odeio fazer papel de idiota! Eu odeio fazer papel de boba! Eu odeio fazer papel de
criana! Eu devia ter inventado uma histria qualquer para explicar o que  que eu
estava fazendo naquela casa. Que tinha ido investigar um barulho... ver se o pintor
tinha deixado  porta aberta... isso seria uma boa desculpa. Ele ia ficar agradecido.
Droga! Depois do sufoco, parece fcil inventar uma histria, mas na hora do aperto as
idias sempre desaparecem. Imagino s o que ele deve estar pensando de mim...
Uma guria metida! Nunca mais vou conseguir olhar para a cara do Bruno. Quando
eles se mudarem, vai ser aquela vergonha. Tomara que essa reforma desgraada
no acabe nunca mais!"




No dia seguinte, todos foram comunicados que a vila mudaria de nome. Os polticos
tinham decidido, e a Vila dos Lilases foi rebatizada pela prefeitura de Travessa das
Perdidas Iluses. O pai ficou furioso quando viu a placa:
-- Isso l  nome que se d a uma rua? Vou fazer um abaixo-assinado! Ainda bem que
eu no votei nessa gente!
 claro que o protesto era s da boca para fora. Seu Joaquim no tinha foras para
mais nada.
Dona Lusa deu de cantarolar a tal cano:
--    Minha viiiida era um paaaalco iluminaaaado, eu vivia vestiiido de douraaado,
palhao das perdiiiidas iluses...
E, todas s vezes, o pai grunhia na poltrona:
--    No me provoca, Lusa!
--     .. e a lua furaaando nosso zinco, salpicava de estreeeeelas
do cho...
                         Abenoado correio


Querida Fernanda,
Recebi sua carta contando novidades da turma. Que saudades, Menina! Por aqui a
gente vai se adaptando a vidinha de guas Belas. A cidade  pequena, as pessoas
so calmas. Todo mundo aqui vive de fazer tric. Todos os domingos tem feira na praa
central. As pessoas vm de longe comprar malhas, casacos, meias e luvas.
Eu e Daniel vamos e voltamos a p da escola. Tem sempre algum colega que segue
com agente no caminho.
Eu j falei de voc com minha av e ela disse que voc pode vir passar as frias aqui em
guas Belas. Mame est trabalhando e a gente est se ajeitando. Converse com seus
pais. Tomara que eles deixem. Escreva logo contando tudo. Tudinho!

Um beijo, Clarissa.

PS.: Ah, eu ia esquecendo da fofoca. Mostrei sua caria para o Daniel e ele deu muita
risada com a histria do Tonho e da Graziela. Disse que ela  uma oferecida e por
isso todos os meninos do bairro fazem de conta que esto apaixonados por ela. S para
se divertir!


"Bendita Clarissa! Bendito Daniel! Vou mostrar a carta para todo mundo na vila! Desta
vez a Graziela me paga! Vai engolir tudo que me disse do tal namoro com Daniel.
Agora a assanhada vai saber que os meninos s querem se aproveitar dela. Acho que
vou tirar uma cpia da carta e pendurar na porta da casa dela! E depois, nas frias, l
em guas Belas, no vai ter Graziela nenhuma para me atrapalhar. Desta vez Daniel
vai perceber que eu amo ele, que eu adoro ele de paixo! Ora se vai!"




Mal pde dormir, na expectativa da tremenda vingana do dia seguinte. Agora
Fernanda tinha todas as armas para devolver com juros os pedacinhos da foto jogados
em seu rosto por Graziela.
As duas no estudavam na mesma classe. Por isso, o plano s poderia ser executado
no recreio. Depois do sinal, l estava Graziela, novamente cercada pelos garotos
embevecidos. Fernanda aproximou-se por trs dela, a tempo de ouvir o fim da
conversa:
--E j estou matriculada, pessoal! Meu pai concordou em pagar o curso de modelo. Vai
ser uma vida sensacional! J imaginaram? Sair na capa de todas as revistas? Depois,
quem sabe... a televiso?
Fernanda tentou afastar-se, mas Graziela j tinha se voltado para ela.
--     Ah,    ah!         voc,    Fernanda?      O      que   quer   desta   vez?
Sorria, superiora, pronta a golpear novamente, na primeira oportunidade.
A menina baixou os olhos e respondeu, casualmente:
--     Nada.  que recebi carta da Clarissa.
-- Clarissa? Quem  essa?
-- Ora, Graziela,  a irm do Daniel!
-- Do Daniel? Ah, eu sabia que tinha de ter Daniel no meio dessa conversa. E o que
dizia a tal cartinha?
--  que... est tudo bem por l, com eles e...
-- E o que  que eu tenho com isso?
--  que... Daniel lhe manda lembranas.
Graziela hesitou um pouco, surpresa. Depois concluiu: -- T. Lembranas
recebidas.
E voltou s costas para Fernanda, continuando a conversa sobre o curso de
modelo.




Na aula de histria, logo em seguida ao recreio, Fernanda guardou a carta de Clarissa
bem no fundo da mochila. Devia estar furiosa da vida com a prpria timidez, mas, na
verdade, sentia-se aliviada. No podia lutar com Graziela com as mesmas armas da
exibida. No sabia fazer isso. E, depois, lutar por que causa? Por Daniel? Por Daniel,
que nem tinha mandado um recadinho para ela pela carta da irm?
"Ai, Daniel..."
Tentou lembrar-se do rosto do namorado secreto. Como estaria ele agora? S conseguia
lembrar-se da carinha de menino da foto 3X4, zelosamente guardada na Arca dos Tesouros.
Fechou os olhos e concentrou-se no prazer proibido de lembrar-se do Daniel nuzinho de
tantos anos atrs, imaginando gostosamente o que aqueles anos deveriam ter feito com
aquele pedacinho fantstico de... de homem!
                    Um bimestre desastroso
Durante o resto do tempo em que a pintura da casa 6 progrediu, Fernanda no viu
mais Bruno, mas dona Teresinha aparecia de vez em quando para acompanhar o
trabalho.
Sempre acabava no sof da sala da casa de Fernanda, tomando cafezinho com dona Lusa.
Fazia cerimnia todas as vezes, mas aquelas visitas acabaram se tornando um hbito e as duas
j conversavam como comadres antigas.
Todo mundo na vila estava comentando que a casa 6 tinha ficado uma beleza. Podia ser.
Depois que fora surpreendida por Bruno, Fernanda nunca mais voltara l.
Na ltima semana, dona Teresinha e o filho vieram ver a casa quase todos os dias. Fernanda
tratara de ficar em casa, espiando atrs das cortinas da janela do seu quarto.
"Em que quarto o Bruno vai ficar? No mesmo de Daniel e Clarissa?
Bruno... Pensando bem, at que ele era bonito. Pena que fosse to velho."




Tinha acabado. A reforma tinha terminado. O pintor tinha ido embora no dia anterior e a
mudana deveria chegar no dia seguinte. Fernanda foi para a cama sem saber por que
se sentia ansiosa por ver a casa 6 ocupada novamente.
"Ah, eu queria  que a famlia de dona Slvia estivesse voltando para a casa 6. Ah, estar
com a Clarissa de novo, para fofocar todas as tardes! E com o Daniel para... para
qu?"
Naquela noite, deitou-se sem remexer na Arca dos Tesouros de Daniel.
Fechou os olhos, tentando imaginar como seria a cidadezinha de guas Belas, com
suas tricoteiras, sua pracinha cheia de casais de namorados... No meio da cidade
imaginada, tentou colocar as imagens de Clarissa e Daniel. Quando o sono chegou,
em sua imaginao Graziela e Daniel passeavam na pracinha de guas Belas. De
mos dadas.
L fora, a noite estava feia, sem estrelas, e Coto no estava uivando quando
Fernanda adormeceu, percebendo que no conseguia mais sentir a mesma raiva
de Graziela.
"No, eu no quero ser como ela. Quero ser como eu mesma. Mas como  que eu
sou?"




Fernanda saiu cedo para a escola e no viu a chegada do caminho de mudanas.
E voltou das aulas carregando um peso desagradvel na mochila. O peso do boletim
do bimestre. No pesava na mochila. Pesava na conscincia. Tinha de entreg-lo
aos pais e devolv-lo assinado no dia seguinte. Ai, o bimestre tinha sido um desastre!
A cabea de Fernanda andava nas nuvens. Em vez de matemtica ou cincias, dentro
de si s cabia Daniel, Clarissa, Graziela, a doena do pai... Ao passo que as provas...
bom, tinham sido as piores provas de sua vida escolar.
Quando chegou  vila, mal olhou para a casa 6. que tinha se tornado a mais bonita de
todas: branquinha, j tinha at vasos de gernio nas janelas.
Entrou em casa e beijou a me. Decidiu no adiar a tempestade. Meteu a mo na
mochila e estendeu o boletim para dona Lusa:
-- Me, hoje  dia de boletim...
Dona Lusa enxugou as mos no avental e abriu o papel. No disse nada. Ou melhor,
respondeu com um suspiro. A menina j esperava por isso.
O almoo tinha terminado e o boletim de Fernanda estava nas mos de seu
Joaquim.
--     Senta a, Fernanda.
Esse tipo era sempre um dos piores comeos de papo que ela conhecia. L vinha
bronca.
--     O que  que est acontecendo com suas notas?
Fernanda, de olhos baixos, no disse nada.
O pai estava paciente, doce. Tentava ser compreensivo.
--     Voc est com algum problema, minha filha?
Problemas, problemas... Ser que adiantava tentar explicar para ele que a cabea
andava girando?
--     Vou melhorar, pai. Prometo.
A me, fingindo-se o tempo todo ocupada arrumando coisas, no perdera uma palavra
da conversa, e sugeriu:
--Acho que essa menina precisa de aulas particulares, Joaquim.
O pai abriu a boca para responder. Fechou-a em seguida e levantou-se. As duas
sabiam o que pensava o homem da casa: onde arranjar dinheiro para pagar aulas
particulares?




Fernanda passou o dia no quarto e s desceu para o jantar.
--     Preciso estudar, me...
Mal tocou na comida e logo subiu, sem ficar para assistir  novela.
--     Essa menina est emagrecendo, Joaquim. Tambm, no come nada...
No quarto, Fernanda no abriu livro algum. Fechou-se. No conseguiu nem chorar.
                    Aquilo que Fernanda sabe

--Ah, me! Que vergonha! Voc foi falar do meu boletim para os vizinhos?
O almoo do dia seguinte estava temperado pelas esperanas de dona Lusa, pela
expresso de alvio de seu Joaquim e pela vergonha de Fernanda. A me tinha falado com
dona Teresinha e apresentava agora a proposta salvadora que fizera a nova moradora da casa
6.
-- No foi para os vizinhos, Fernanda. E no fui fazer nenhuma fofoca. Imagine se eu sou de
fofocas! Foi s uma conversa, assim, sem inteno. Ela falou do filho e eu falei de voc. Disse s
por alto que a oitava srie  muito dura e que voc talvez precisasse de reforo.
-- E isso no  fofoca, me?
-- Fique quieta, Fernanda -- cortou seu Joaquim. -- Deixe sua me terminar.
-- Pois , minha filha. Dona Teresinha falou com o filho e ele concordou: Bruno pode dar aulas
particulares para voc. E no vai cobrar nada!
-- Aulas para mim? Mas dona Teresinha disse que ele  professor de ingls e francs. E o que
eu no sei  matemtica! Alm de gramtica,  claro.
A me encerrou as dvidas:
--      Um rapaz como ele, instrudo, pode dar aulas de qualquer matria da oitava srie,
Fernanda.
 noite, abraada ao travesseiro, a menina adormeceu pensando: "Ele pode dar aulas de qualquer
matria da oitava! Para qualquer aluninha boba. Como eu, n? Hum, acho que no vou
gostar dessas aulas!"




"Que vergonha!", pensava Fernanda ao atravessar a ruazinha da vila na direo da
casa 6. "Com que cara eu vou aparecer l? Bruno vai achar que eu sou uma
burra!"
Ela gostaria que a distncia entre as duas casas fosse enorme, e no apenas de
alguns passos. Desejou que a casa 6 ficasse em outro bairro, do outro lado da
cidade, que ficasse at em outra cidade. guas Belas, talvez? Ser que Daniel
precisava tambm de aulas particulares?
Tera-feira. Nas noites de tera e quinta, Bruno no tinha de ir  faculdade para seu
curso de mestrado. Seriam esses os dias de aulas particulares para a "bobinha da
oitava".
"Mestrado, o que ser isso? Deve ser curso para virar professor de faculdade."
Eram seis e meia em ponto, a hora combinada para as aulas que deveriam durar uma
hora. O jantar na casa de dona Lusa saa s sete e meia para que a loua j
estivesse lavada na hora da novela. "De dentro da casa 6, vinha um cheiro gostoso.
Dona Teresinha devia estar fritando tempero para o arroz. Ajeitou a mochila no
ombro e tocou a campainha.
-- Oi, Fernanda! Gostei da pontualidade.
Bruno sorria amigvel. Estava vestindo uma malha marrom - avermelhado, bem justa
no peito. E tratava a aluna como se ela fosse uma criancinha.
"No vou gostar dessas aulas", pensava a menina entrando na casa.
A nova decorao da sala estava bonita. No havia nada que lembrasse a casa
da dona Slvia. O tapete era novo e as poltronas pareciam ter sido forradas
recentemente. J escurecia, e a sala estava discretamente iluminada por abajures.
Menos sobre a mesa de jantar. Acima dela, uma lmpada pendia improvisadamente de
um fio. Dona Teresinha e Bruno ainda no tinham comprado um lustre para completar
a decorao. Ao lado da televiso -- nova em folha! -- havia uma mesinha com um
telefone em cima.
"Um telefone!", suspirava a menina por dentro, imaginando-se a telefonar para as
amigas, deitada no sof. "Mas quase nenhuma das minhas colegas tem telefone. Bom,
a Graziela tem, mas no  minha amiga!"
--Venha, Fernanda. Vamos sentar aqui. -- Bruno puxou uma das cadeiras da mesa e
apontou outra para Fernanda. -- Acho que primeiro a gente deve bater um papo, no
? Preciso descobrir o que voc sabe.
--      Bom, eu estou meio fraca em matemtica... e em anlise sinttica.
Bruno sorriu daquele jeito bonito que deixava Fernanda com raiva: era o sorriso que
todo adulto usa quando no quer brigar com uma criana que acabou de fazer uma
reinao.
-- No, Fernanda. Eu preciso descobrir  o que voc sabe. E da, continuamos...
-- Como assim, o que eu sei? O que eu sei eu j sei. Meu problema  o que eu no
sei.
Com pacincia, um jeito superior que lembrava o tal sorriso, Bruno pegou uma folha
branquinha e, com uma caneta, desenhou a curva de uma montanha, com um
ziguezague em um dos lados, formando os degraus de uma escada:
-- Olhe, querida. O conhecimento humano vem se acumulando h milhares de anos.
Hoje, j formou uma montanha enorme. Vamos fazer de conta que, para chegar ao
alto dessa montanha, exista uma escada. Todas as pessoas esto em algum ponto
dessa escada, em algum de seus degraus. E vo subindo, degrau por degrau.
-- Ento eu acho que estou descendo.
-- No se desce a escada do conhecimento, querida. Uns sobem mais depressa do
que os outros. Outros, coitados, por falta de condies, so obrigados a ficar parados
nos primeiros degraus. Muitos, mesmo tendo a oportunidade de subir, empacam e
cismam em ficar parados porque querem ou porque so preguiosos demais. Desse
modo, um bom professor precisa saber em que degrau est seu aluno para, a partir
dele, ajud-lo a subir a escada com segurana.
Fernanda gostou da comparao:
"Deve haver uma escada dessas para os amores acumulados. E a humanidade
inteira est na minha frente..."
A voz de Bruno, aos poucos, ocupou toda sua ateno. O professor folheava os
cadernos da nova aluna e fazia comentrios sempre elogiosos, pois s apontava os
acertos de Fernanda, nunca seus erros. Ele queria comear as aulas a partir dali. Do
que Fernanda j havia conquistado. O resto, o que faltava, a menina comearia a
conquistar com a ajuda de Bruno.
"Ser que ele me ajuda a conquistar o Daniel?"
No, no era essa a escada que o jovem professor queria desvendar para
Fernanda.
"Puxa, ele tem o dobro da minha idade!"
            Aquilo que Fernanda no sabia


Naquela noite, sentada no tapete, aos ps do sof ocupado pela me e pelo pai,
Fernanda via as imagens da novela correrem-lhe  frente dos olhos, sem
conseguirem sobrepor-se  outra novela que se desenrolava dentro de sua
cabea. O gal, o famoso Slvio Marcos, um moreno daqueles queimados de
praia, abraava a namorada e sussurrava sedutor: -- Querida...
"Querida... O Bruno ficou me chamando de 'querida' o tempo todo.  como aqueles
professores cheios de vento, que tratam a gente como criana. S faltou me
chamar de 'queridinha'..."
O moreno beijava longamente os lbios da atriz. Uma comicho gostosa eriava os
bicos dos seios de Fernanda. Nessas horas, costumava imaginar-se nos braos de
Daniel, sorvendo o beijo que ela nunca tinha recebido de ningum.
Naquela noite, o galzinho que a beijava em pensamento estava sem rosto.
"Ai, como estar o Daniel agora? Com quem ele estar?" Arrepiou-se. Pela primeira
vez, pensava que Daniel poderia j ter arranjado uma namorada em guas Belas.
"Ai, Daniel..."
Mas a capacidade de concentrao da menina devia estar em baixa naquela noite,
pois a imagem do rosto bonito de Daniel teimava em fugir-lhe da lembrana.
Coto devia ter ido dormir cedo, pois a noite na Travessa das Perdidas Iluses
passou-se sem uivos de saudade.
A quinta-feira demorou a chegar. Quando a porta da casa 6 se abriu e Bruno
entrou sorridente, Fernanda j estava em sua cadeira,  espera. Na mesa, um
pratinho com biscoitos e a bandeja com o bule de caf de porcelana antiga, toda
trabalhada com flores em relevo. Dona Teresinha sabia receber bem as visitas,
mas a menina no gostava de caf.
-- Oi, Fernanda! -- cumprimentou Bruno. -- Voc no
imagina que trabalho me deu a aula de hoje!
E desandou a falar de uma velha rica que lhe pagava muito bem por um curso
particular c/e francs. Tinha tanto
dinheiro que at havia comprado um apartamento em Paris,
para onde ia pelo menos trs vezes por ano.
-- Imagine: a pobre acha que para falar francs basta fazer biquinho. Ah,
parece que est dando beijos no ar, coitada! Mas no consegue nem falar merci
beaucoup que d para entender! Hum, me desculpe, um professor no pode falar
mal de seus alunos. No  tico. Na verdade essa aluna  uma senhora
adorvel. Muito gentil e carinhosa. Casada com um importador de vinhos
riqussimo. Mas, coitada, nunca leu nada na vida. , querida, dinheiro e cultura
nem sempre andam juntos!
"L vem o 'querida' de novo..."
Fernanda gostou daquela aula. E continuou gostando das outras que se seguiram.
Bruno fazia de cada uma daquelas horas das teras e das quintas uma diverso. No
ms seguinte, a carga de aulas aumentou e ele arranjou uma hora extra nas sextas.
Duas semanas depois, havia mais um horrio aos sbados de manh. Esta era a
aula mais longa e gostosa, reservada  reviso de portugus.
--      No vou carregar em anlise sinttica, querida. Acho que seu professor de
portugus ... bem, no concordo com ele. Ele carrega muito na gramtica. Sempre
gosto de comparar o aprendizado de uma lngua com o aprender a dirigir. Para dirigir
bem um carro, ningum precisa conhecer mecnica. Se o sujeito j  um
bom piloto, o conhecimento de mecnica ajuda-o a tornar-se um piloto ainda melhor.
Mas, se uma pessoa no sabe dirigir, de que adianta ensinar a ela a diferena entre o
virabrequim e o burrinho da panela?
Fernanda ria com gosto naqueles momentos. As peas do motor de um carro tinham
nomes mais complicados do que os palavres que ela precisava decorar para as
provas de gramtica.
--      S vamos tratar de gramtica quando for preciso, para explicar melhor os
progressos que voc for conseguindo, querida. Nossa lngua  maravilhosa,
Fernanda. Para conhec-la bem,  preciso que voc a veja viva, apaixonada,
sangrando nos textos fantsticos de nossos poetas e romancistas. Nas emoes
desses textos, voc compreender muito melhor o funcionamento do seu
prprio idioma do que decorando terminologias gramaticais.
Os sbados eram dedicados quase que somente  literatura e Fernanda aprendeu a
adormecer todas as noites de luz acesa, deixando cair algum dos livros emprestados
por Bruno. Ele no tinha nenhum de literatura juvenil, desses que a gente tem de ler
para prova na escola. Em compensao, os livros que tinha e lhe emprestava foram
conquistando a sensibilidade de Fernanda.
"Ah, como  que esse poeta portugus sabia que eu sentia exatamente isso?",
admirava-se a menina lendo o tal Fernando Pessoa, uma das revelaes de Bruno.
"O mesmo nome que o meu, s que de homem. Vai ver  por isso. Uma questo de
nome igual. Puxa, parece at parapsicologia! Esse Fernando Pessoa j morreu h
muitos anos. Como  que ele podia adivinhar que eu, tanto tempo depois, podia estar
sofrendo por causa do problema deste poema aqui?"
Navegava de um verso a outro, de um poema a outro, de um Fernando a outro,
descobrindo que aquele poeta fora muitos, de lvaro a Alberto, de Ricardo a
Fernando, de Fernando a Fernanda...
"Ele foi muitos... e agora ele  eu..."
Fernanda leu tambm um poema que foi uma surpresa das grandes: falava
justamente dos complexos da menina pelo tamanho dos seios! Seu autor: Carlos
Queiroz Telles, que tambm j tinha morrido.
"Quem ter contado o que eu sinto ao Fernando e ao Carlos? Eu nunca falei sobre
nada disso para ningum!"
A menina aos poucos foi descobrindo, pelas mos de Bruno, que todos os sentimentos
da Humanidade moravam em seu corao. Foi to gostoso descobrir isso, to
gostoso...
Estava numa praa. Era mesmo uma praa? Parecia ser sim. mas daquelas dos filmes
sobre o tempo antigo, cheia de mercadores, carroas com frutas e verduras, soldados
com lanas e capacetes, muito barulho, muita sujeira e muita gente estranha vestida
com roupas engraadas.
Onde ficaria aquela praa? Seria a pracinha de guas Belas? No parecia ser, mas... l
estava Daniel, passeando abraado com uma garota que Fernanda no conhecia.
Espere: era Graziela/A danada, galinhosa, contava s gargalhadas para Daniel sobre
seu sucesso como a modelo mais linda do Brasil.
Fernanda quis gritar, chamara ateno daquele casal, dizer que ela estava ali, que...
mas dois velhos, vestidos com mantos de veludo, contaram seus passos. Tinham
longas barbas brancas e sorriam para ela. Fernanda no conhecia nenhum deles,
mas, de repente, soube quem eram: Fernando e Carlos! Os poetas!
O sorriso dos dois era mudo, parado, como nas fotografias, mas diziam, sem mexer os
lbios, que eles sabiam tudo o que ela sentia tudo o que ela pensava, que ela jamais
poderia ter segredos para nenhum deles.
-- Eles sabem quem eu sou! Sabem que eu gosto do Daniel! Vo descobrir a Arca dos
Tesouros! Ai, que vergonha!
Fernando e Carlos falavam, sem se mover, com uma voz nica, que ressoava dentro do
esprito de Fernanda. Diziam que sabiam de tudo, de cada detalhe, de cada
segredinho da menina.
--Est tudo escrito, Fernanda. Est tudo l, nos nossos livros, escritos muito antes de
voc nascer... Leia, Fernanda, leia a sua prpria alma, Fernanda...
--      Querida... querida...
Era Slvio Marcos, o gal moreno da novela que, dessa vez, avanava para ela. Vinha
com a boca semi-aberta, mida, pronta para beij-la...
--      Querida...
O gal transformara-se em... em Bruno! E a abraava, e ela sentia o perfume daquela
colnia masculina, aquele cheirinho de homem que a envolvia todos os fins de tarde de
tera, de quinta, e agora de sexta-feira... e de sbado. ..E de todas as noites, na me-
mria, quando ela adormecia com os poetas e com a imagem de Bruno projetada na
tela escura de seus pensamentos...
--      Bruno... ai. Bruno...




Acordou sem sobressaltos. Molhada e satisfeita. L fora, a noite era escura demais e
Coto estava calado.
"Fernando e Carlos! J esto mortos? Mas eu fico lendo o que eles escreveram, curtindo
o que eles queriam que eu curtisse. Ser que eles esto mortos mesmo? Dentro de
mim, eles esto vivos... Acho que os poetas no morrem nunca. Acho que viram
anjos... Boa noite, Fernando. Boa noite, Carlos."
Respirou gostoso, sentindo o sono voltar e adormeceu balbuciando:
"Boa noite, Bruno..."
                                 O anjo peralta



Graziela estava insuportvel naquela manh! J era bastante chato ter de ouvir aquele papo
de postura, de desfile, de modelos magrssimas, de regimes de fome, de fotos e tudo o mais.
S que, daquela vez, havia um convite para um teste de um comercial de televiso. E quem
poderia agentar a Graziela com uma bomba dessas?
--  s o comeo, pessoal, isso  s o comeo, vocs vo ver!
-- Vai ser anncio de qu, Graziela?
--Parece que  de iogurte, ou de refrigerante, nem sei bem. Mas dizem que  uma agncia grande,
dessas que filmam um comercial por dia. Se eles gostarem de mim, acho que outros convites
viro.
-- Quer dizer que voc vai para a tev? Vai conhecer toda aquela gente famosa? Os
cantores? E os artistas de novela?
-- Bom, por enquanto acho que no...
Ouvindo tudo, Fernanda ficava atrs do grupo que cercava Graziela de perguntas, admirao
e inveja. Afinal, eles iam ter uma colega na televiso! Talvez at trabalhando com o Slvio Marcos,
o moreno carioca por quem metade das alunas do colgio estava apaixonada. Isso porque
a outra metade era composta de meninos, que se roam de inveja do sucesso do Slvio
Marcos com as colegas. Por isso, pelo menos metade dessa metade de meninos vestia-se
como o moreno e procurava usar o cabelo do mesmo jeito que o famoso ator.
-- E quando vai ser o teste?
-- Hoje, gente. Logo depois da aula!
Bateu o sinal e Fernanda voltou para a sala de aula imaginando a cena da novela
daquela noite: Graziela e Slvio Marcos beijando-se na tela para o pas inteiro
assistir. Durante a aula, na cabea de Fernanda, Slvio Marcos tinha a cara de Daniel.
"Hum, no sou muito chegada nesses tipos atlticos..." Aos poucos, Slvio Marcos ia
ficando com a cara de Bruno...




-- Bruno, como era a cara do Fernando Pessoa? E do Carlos? Eles tinham barba
branca?
-- Quer saber como eles eram? A foto do Fernando Pessoa eu tenho em uma
enciclopdia. A do Carlos... hum... acho que est em um dos livros dele. Espere um
pouco. Volto j.
Bruno levantou-se e subiu para o quarto, onde estavam os seus livros. Fernanda
esperou, olhando a sala em volta. Ali ainda no havia muitos traos pessoais de
Bruno. Quase tudo tinha a cara de dona Teresinha, com o capricho e o carinho que
aquela senhora transmitia. Era tmida.
"Ser que eu vou ser como dona Teresinha quando ficar velha?"
Os traos da presena de Bruno na casa 6 s deveriam estar no quarto. No quarto de
Clarissa e de Daniel. O que restava de Daniel a menina guardava na caixa de
papelo debaixo da cama. Naquele quarto da casa 6 no havia mais Daniel. S havia
Bruno.
"Vai ver, ele tambm pendurou cartazes na parede. Ser que tem um da Snia Braga
com os peites de fora?"
Pensou que gostaria de ter uma caixa com Bruno dentro. Com aparas de lpis,
msica predileta, fotografia, guardanapo de papel e... e canudinho de refresco!
--      Aqui esto, Fernanda. Conhea os seus poetas!
Bruno descia a escada falando e trazia os livros que tinha ido buscar. Abriu a
enciclopdia na letra P e l estava um homenzinho mido, de terno e colete, chapu e
um bigodinho minsculo.
-- Esse  Fernando Pessoa? Parece o Santos Dumont!
-- Ah, ah! Parece mesmo. S que eu acho que ele voava mais alto, bem mais alto... e
sem precisar de avio! Veja, aqui est o Carlos Queiroz Telles...
Na ltima pgina do outro livro, l estava um rosto aberto num sorriso maroto, bonito,
gozador. Como um anjo peralta, sobrancelhas arqueadas, os olhos escuros fixavam-
se em Fernanda. Parecia rir da menina, como se a conhecesse por dentro, comple-
tamente, como se fosse seu pai e sua me, seu criador, como se tudo o que ela
pensasse e fizesse tivesse sido obra dele. Era... era um pouco parecido com Bruno,
principalmente nas horas em que o charmoso professor sorria meio gozador para a
menina.
--      Bruno, voc me empresta este livro?
O recreio da escola fervilhava em volta de Graziela, que j havia repetido nem se
sabe quantas vezes os lances do fantstico teste de cmera da tarde anterior. E, a
cada repetio, a histria se enriquecia com as respostas que a nova estrelinha tinha
de dar para satisfazer a curiosidade dos colegas. Na ltima fileira do grupo, Fernanda
ouvia os lances da aventura de Graziela. Olhava para as vrias camadas de curiosos,
demorando-se um pouco mais em cada garoto que j tinha ficado com a colega. O
Tonho, o Pablo, o Roberto...
"E o Marcelo? Ser que tambm j ficou com ela? E o Douglas? E o Hugo?"
Sorria por dentro, imaginando o quanto subiria a fama de paquerador de cada um
deles depois que espalhassem, para quem quisesse ouvir, tudo o que j tinham feito
com a famosa nova estrela da televiso: Graziela Viveiros! Na certa falariam do que
fizeram e acrescentariam at um pouco do que no tinham feito, s para apimentar o
relato. Da, Graziela ficaria ainda mais falada... Mas no  disso que vivem as
estrelas?
-- Como  um teste de televiso, hein? -- perguntava a Mantinha.-- difcil?
-- Difcil nada, gente! Foi incrvel. ramos umas vinte meninas. Tinha dois
maquiadores e penteadores e levou um tempo at eles embonecarem todas ns.
Fizeram o teste em ordem alfabtica de sobrenomes. Como meu sobrenome comea
com V, fui a ltima e...
-- Ai, que chato esperar esse tempo todo!
-- No. Foi at melhor. Assim eu pude assistir ao teste das outras e fiquei de olho no
diretor. Um garoto bonito, o Emerson, a uns trinta anos...
-- Trinta anos?! E voc chama isso de garoto? Que velho!
-- Um gato, menina. Pois , eu fiquei de olho nele e consegui perceber quando uma
das outras fazia alguma coisa que ele no gostava. Pela expresso, sabe? Na minha
cabea, fui ensaiando o que tinha de fazer na hora e...
-- E o que voc tinha de fazer?
-- Tinha de desfilar, sorrir para a cmera e dizer: "Gostosa, eu? Gostosa  a
Marmelada Tentao! Ai! Eu me lambuzo toda com a Tentao!"
-- Que coisa mais idiota!
-- Cala a boca, Tonho! Deixa a Graziela falar!
-- E voc foi escolhida?
-- Bom, eles vo ter de mostrar os videoteipes dos testes para os donos da Marmelada
Tentao. A resposta s vem daqui a uns quinze dias.
-- Puxa, voc vai ter de esperar at l?
-- Nada! Agora  que vem a parte melhor. No final, o Emerson chegou para mim e
disse que o meu teste estava timo. Que, por ele, j seria eu a escolhida!
-- No diga!
-- Digo, sim. E digo mais: da ele me perguntou se eu tinha uni book...
-- Um book? Isso  livro em ingls.
-- Ih, voc no entende nada da linguagem das modelos, Hugo. Book  um livro
cheio de fotografias, em todas as poses, de uma modelo. O Emerson disse que eu
posso fazer uma carreira maravilhosa, como a da Cindy Crawford at!
-- Nossa!
-- Mas para isso preciso ter um book muito bem feito, para mostrar nas agncias de
modelos.
-- E por que voc no faz logo as fotos para esse tal book?
-- Essas fotos so carssimas. Tm de ser feitas por bons fotgrafos, que cobram uma
fortuna. Imagina se eu pedisse isso para o meu pai! Ele no tem dinheiro nem para
trocar a televiso!
-- Que pena! Quer dizer que para ficar rica como modelo a pessoa j tem de ser
rica antes?
-- Espera a, espera a, espera a! Agora  que vem o melhor, o mais importante da
histria toda. O Emerson  um fotgrafo famoso! Disse que gostou tanto do meu
talento que queria me oferecer essas fotos, de graa!
-- O qu?
-- Isso! Me deu o carto do estdio dele e falou para eu ir l na tera-feira prxima,
depois das seis. Vai me fotografar de graa! No fim da semana que vem, eu j vou ter o
meu book! O meu bookl Cindy Crawford, voc que se cuide! A vai a Graziela Stuart!
-- Mas o teu sobrenome no  Viveiros?
-- Vou mudar. Viveiro  gaiola de passarinho. Vou ser uma top modele meu nome
artstico vai ser Graziela Stuart. O mesmo do Emerson. Emerson Stuart!
-- Emerson Stuart? Ele  estrangeiro?
-- Nome artstico, menina, nome artstico. Voc no entende mesmo do mundo das
passarelas...
-- Pra ter esse nome voc vai ter de casar com o Emerson?
-- Hum... at que no seria mal, Martinha. Voc no imagina como ele  lindo.
Graziela estava impossvel mesmo, como sempre. Mas Fernanda voltou para a sala de
aula feliz com a felicidade da amiga.
"Amiga? No tenho amigas, depois que a Clarissa foi embora para guas Belas... Puxa,
e a Clarissa? Preciso escrever para ela. Devo falar do teste da Graziela? E ser que
devo contar do Bruno? Ora, contar o qu? Que eu sou burra e tenho de ser salva por
um professor particular de quase tudo?"
                            Perdidas Iluses

Seu Joaquim no parecia melhorar nem um pouco. Andava cada vez mais
cansado, sem coragem nem forcas para nada. Quase nunca saa e passava o dia
no sola, lendo o jornal ou dormitando na frente da televiso, sempre ligada naqueles
programas infantis que passam de tarde. De vez em quando, porm, tinha de sair de
casa para ir ao mdico.
E, naquela sexta-feira, quando Fernanda chegou da escola, a operao "ir ao
mdico" estava em pleno andamento. O pai j tinha almoado e estava pronto para
sair. A filha deu-lhe um beijo de chegada e despedida. O pai fitou-a nos olhos e
repentinamente perguntou:
-- O que voc vai estudar, Fernanda?
-- Como o que eu vou estudar? Com as aulas do Bruno, j estou melhorando
bastante, sabe? Vou terminar a oitava e...
-- E depois do segundo grau? Que profisso vai escolher? Que faculdade vai
cursar?
--     Mas ainda falta tanto tempo, pai. Por que isso agora?
Para seu Joaquim, era muito importante que Fernanda se diplomasse, isso a
menina sabia.
"Coitado do papai! Passou a vida inteira sonhando em ter um filho doutor. De
preferncia, um filho homem. J que eu no consegui nascer menino, pelo menos um
diploma eu queria dar a ele."
Quando o assunto "futuro" aparecia em alguma conversa, a maioria de suas colegas
falava mais em casamentos fantsticos do que em profisses independentes.
"Profisso... formada! Em qu? Fora essa histria de medicina e engenharia, nem sei
muito bem pra que  que as outras servem. Medicina? Humpf! Nunca! No sirvo para
mexer em cadver, como dizem que os alunos tm de fazer na faculdade. Medicina
est fora! Engenharia? No, tem muita matemtica! Ah, e modelo? J pensou, ser uma
modelo como a Graziela? Nada, no sou gostosa como a Marmelada Tentao. Nem
como a Graziela... Acho que vou acabar escolhendo alguma coisa que tenha a ver
com comunicao, escrita, lnguas... Como o Bruno. Ele quer ser diplomata. O que 
que faz um diplomata?"
J na porta, pegando o guarda-chuva, seu Joaquim voltou-se novamente para a
filha:
--J sei: Direito! Por que voc no pensa em ser advogada?
Recostada no batente da porta, olhando o pai distanciar-se lentamente ao longo da
vila em direo ao ponto do nibus, a menina procurava imaginar por que a histria do
diploma universitrio tinha voltado  baila:
"O que est havendo? Ser que ele est pensando em... em morrer?! E quer me
deixar formada? Ai, deve ser isso! Mas ele vai ficar bom, vai ficar bom... Advogada! Eu
nem sei direito o que faz uma advogada. Ser que  como nos filmes de julgamento?
Ficar interrogando testemunhas depois que elas juraram dizer a verdade, somente a
verdade, nada alm da verdade? Hum... imagina se eu tenho a coragem de ficar
discursando em pblico! Mas, se no for s isso, o que faz uma advogada? Preciso
perguntar ao Bruno".
O pai sumiu ao virar a esquina. Por trs da menina, chegava da cozinha a voz da
me, cantando a tal msica que dera novo nome  vila:
-- Minha viiida era um paaaalco iluminado, eu vivia vestido de douraaado, palhao das
perdiiiiidas ilusees...
"Perdidas iluses! Sou tambm uma palhaa das perdidas iluses? Daniel! Sempre fui
uma boba, uma palhaa, perdida nas iluses de que um dia voc seria meu. Daniel!
Passou to pouco tempo que voc se foi, Daniel, e  como se tudo tivesse se passado
numa vida anterior...  como se tudo isso tivesse acontecido com outra pessoa.
Tudo to longe..."
Na sua cabea, o nome "Bruno" aparecia em clares. Fernanda sacudiu-se, afastando a
imagem. Fechou a porta e foi procurar dona Lusa na cozinha, preparando o almoo
para as duas.
-- Me, voc devia cantar "vestida" de dourado, e no "vestido", e "palhaa" em vez de
"palhao", como se fosse um homem.
-- Ah, ah, filha! A msica  assim mesmo. Deve ter sido composta por um homem.  a
histria de um sujeito que mora num barraco e foi abandonado pela mulher. Se eu
cantar, "vestida de dourado" vai ficar estranho depois, n? J pensou? Na hora em
que tiver de cantar que "sinto saudade da mulher -- pomba-rola que voou", como 
que fica?
Fernanda comeou a pr a mesa e sorriu da brincadeira da me.
-- Foi um homem que escreveu essa letra? Quem?
-- Sei l...
-- Por que o pai fica nervoso, sempre que voc comea a cantar essa msica?
-- Ah, minha filha, isso  bobagem dele.
-- Fala, me. Voc est escondendo alguma coisa...
Dona Lusa estava com uma expresso gostosa, como se fosse uma das colegas de
escola da filha. E foi como se estivesse fazendo uma fofoca adolescente que falou
para a filha:
-- Lembra do dia que voc ficou triste quando o Daniel foi embora?
-- Ah, me! Isso foi h um sculo!
A histria dessa msica tambm. Se eu contar, voc jura que no fala disso para o
Joaquim?
--Juro.
Dona Lusa suspirou e seus olhos levantaram-se para um ponto distante, em busca de
uma doce recordao:
-- Ah, minha filha, eu j fui moa um dia. E o Joaquim... Ah, como ele gostava de mim!
Na poca, no bairro onde a gente morava tinha um rapaz que tambm arrastava a asa
para o meu lado.
-- Que legal, me! -- exclamou a menina, excitada pela confidencia. -- E quem era
esse?
-- Um rapaz bonito que tocava violo em todas as festas. S msicas romnticas. E
Cho de estrelas era o maior sucesso dele. As meninas chegavam at a chorar quando
ele comeava: "Minha viiiida era um paaalco iluminaaaado..." E eu,  claro, me derretia
toda tambm. Mas tudo sem maldade, veja bem!
"Cime! Meu pai ainda tem cime da minha me! Que jia!"
-- E voc ficou com esse cantorzinho?
-- Que  isso, Fernanda? Naquele tempo, ningum ficava como hoje em dia. A
educao era um sufoco! Seu pai foi o meu primeiro e nico namorado!
-- E vocs se beijavam bastante?
Com as mos na cintura, dona Lusa encarou a filha:
-- Voc est muito perguntadeira, no est, Fernanda?
-- O que  que tem, me?
-- Namoro naquele tempo no era essa pouca vergonha de hoje em dia. Era tudo no
maior controle! Seu av, o falecido meu pai, era filho de italianos. Da Calbria! Gente
brava, capaz de cortar a garganta de um namorado de alguma irm se ele se metesse
a engraadinho!
-- Que horror, me!
-- Beijos, Fernanda, s roubados!
-- E quantos beijos voc deixou o pai roubar de voc?
-- Isso  coisa que se pergunte  prpria me, menina?
-- Ah, fala me! Quantos?
Dona Lusa baixou a cabea como uma menininha tmida. E foi num suspiro que
revelou:
--     Todos que ele quis...




Depois da loua lavada, dona Lusa foi passar roupa e Fernanda trancou-se no quarto.
Trabalhou preguiosamente com um ponto de histria do Brasil. Logo estava tentando
resolver uma srie de dez exerccios de matemtica passados a ela por Bruno. Copiou
o enunciado de cada um e separou a folha escrita pelo jovem professor. O primeiro
exerccio era fcil mas, a partir do segundo, o pensamento de Fernanda j estava
longe da matemtica. A lembrana de Daniel distanciava-se, escondendo-se em
alguma toca do esprito da menina. Um canto como aqueles despejos que a me
guardava em caixotes no forro e de cuja existncia acabava esquecendo para
sempre.
L de baixo, bem fraquinha, vinha a voz de dona Lusa, cantarolando aqueles versos
mais distantes ainda, lembranas de um jovem bonito, tocador de violo e das
emoes das adolescentes daquele tempo.
--... palhao das perdiiiidas iluses...
"Perdidas iluses! Pois que se percam!"
Ajoelhou-se no cho, estendeu o brao por baixo da cama e tirou de l a caixa de
papelo.
"A Arca dos Tesouros de Daniel."
Abriu-a e, sem deter-se em nenhum daqueles objetos tantas vezes manuseados,
despejou o contedo da caixa dentro de um envelope grande. Com letras de frma,
bem disfaradas, escreveu o nome de Daniel e seu novo endereo em guas Belas.
No escreveu nada no remetente.
"Vai at a fita com a msica do Daniel. Tambm nem tenho como ouvir isso..."
Dentro da caixa de sapatos, colocou a folha de exerccios, escrita por Bruno. Era
um recomeo.
Meio longe, veio um latido alegre de Coto. O cachorrinho de vez em quando ainda
uivava um pouco  noite. Mas parava logo. Parecia estar se acostumando com sua
nova vida.
Fernanda pegou o envelope, os cadernos para as aulas do fim da tarde e desceu
as escadas.
-- Me, vou dar uma passadinha pelo correio antes da aula com o Bruno, t?
-- Correio? Carta para a Clarissa, no ? Voc mandou lembranas minhas  dona
Slvia?
-- Claro, me. Tchau.
"O Daniel nem vai entender por que algum lhe mandou essas coisas. Bom, mas
jogar fora eu no podia..."
Mesmo quando terminam, Fernanda achava que sonhos no se jogam no lixo. Saiu
para o correio imaginando que seus pais eram seres humanos iguais a todo mundo.
At mesmo iguais  prpria filha...
                          Renovadas iluses

Advogada? Se voc tem jeito para advocacia? No sei, Fernanda. Profisso  uma
escolha muito pessoal. De qualquer jeito, um julgamento no Brasil  muito diferente do
que voc v na televiso. Aqueles so julgamentos americanos. Aqui no tem esse
negcio de fazer as testemunhas jurarem dizer a verdade, somente a verdade...
Bruno levou a srio a consulta da menina e a aula daquela sexta-feira comeou sem
gramticas nem matemticas.
-- Direito  uma cincia fantstica, querida. Olhe, eu acho que  a cincia da civilizao.
A civilizao s pode manter-se se as pessoas aceitarem leis e regras que garantam a
convivncia harmoniosa entre elas. Assim, quando um advogado examina essas leis
procurando ver onde se encaixam os interesses particulares de um cliente e at que
ponto as leis prejudicam esses interesses e debate essas opinies com um advogado
da parte contrria, tudo submetido  deciso final de um juiz, nesse momento todas as
regras sociais esto sendo reavaliadas por causa de uma nica pessoa. Assim,
enquanto toda a sociedade estiver disposta a discutir os direitos de um nico ser
humano, a civilizao estar garantida.
-- Nossa, Bruno! Como voc fala bonito! J pensou em ser poltico?
-- Poltico? Ah, ah! Talvez... Mas o que eu penso mesmo  em ser diplomata. Coisa difcil!
O exame de admisso  carreira diplomtica  uma loucura. No incio do ano que vem
vou defender a minha tese de mestrado. Depois...
-- Defender a sua tese? Algum est atacando?
-- Voc est gozadora hoje, no? Minha tese  sobre o romantismo tardio na literatura
francesa do sculo XIX. Estou tendo de ler e reler tantos romances que...
"Romantismo tardio!", pensava a menina, bebendo cada palavra de Bruno. "Romantismo 
coisa s para jovens? Quem  velho no pode ser romntico? E minha me, com suas
canes melosas? E meu pai, com seus cimes? Acho que quando eu ficar velha vou ser
bem ciumenta. Se eu tiver um amor, por exemplo, como o Bruno, eu... Ah, que loucura!
Como o Bruno... Ai! Que amor impossvel!"
A conversa continuou levinha, sem tocar em estudos, at Fernanda comentar as
confidencias de sua me, que haviam comeado com a tal cano.
--      Cho de estrelas? Esse  um clssico da msica popular brasileira. A msica 
de Slvio Caldas e a letra  do famoso poeta Orestes Barbosa.
"Famoso? Puxa, nunca ouvi falar..." Bruno pegou uma folha de papel.
--      Hum, deixa ver se eu lembro a letra inteira -- comeou a escrever e logo Cho
de estrelas estava no papel. -- Aqui est, Fernanda. Leia sem cantar. Leia como se o
poema nunca tivesse sido musicado.
A menina pegou a folha. L estava a caligrafia bonita de Bruno. A mesma caligrafia com
os exerccios de matemtica, que agora estava guardada na caixa de papelo que
havia ficado debaixo da cama. Corou, ao lembrar-se que no havia ainda nenhum
canudinho de refresco do Bruno na caixa. E leu em voz alta:
--       Minha vida era um palco iluminado. Eu vivia vestido de dourado -- palhao das
perdidas iluses. Cheio dos guizos falsos da alegria, andei cantando a minha fantasia
entre as palmas febris dos coraes... Meu barraco no morro do Salgueiro tinha o
cantar alegre de um viveiro -- foste a sonoridade que acabou... E, hoje, quando do
sol a claridade forra o meu barraco, sinto saudade da mulher -- pomba-rola que
voou... Nossas roupas comuns dependuradas na corda, qual bandeiras agitadas,
pareciam um estranho festival: festa dos nossos trapos coloridos, a mostrar que nos
morros mal vestidos  sempre feriado nacional! A porta do barraco era sem trinco,
mas a lua, furando o nosso zinco, salpicava de estrelas nosso cho... Tu pisavas nos
astros distrada, sem saber que a ventura desta vida  a cabrocha, o luar e o violo...
Terminou a leitura e olhou para Bruno, emocionada:
-- A lua, furando o nosso zinco... Que lindo! Isso quer dizer que o telhado de zinco do
barraco era velho, no ? Por isso, o luar entrava pelos buraquinhos e "salpicava de
estrelas nosso cho"! Pedacinhos de lua! Lindo demais!
-- A msica brasileira  linda demais, Fernanda. Para falar a verdade, acho que as
letras das canes populares so a nica forma de o nosso povo tomar contato com
a poesia. Poesia nos livros quase ningum l.
A aula continuou a partir da letra daquela cano. Bruno ficou comentando-a como se
estivesse falando do poema mais clssico de nossa lngua.
"Esse  um amor do jeito antigo...", pensava a menina, enquanto ouvia a voz de Bruno.
"Mas ser que o amor muda com o tempo?"
--     , acho que todo mundo tem uma "mulher -- pomba-rola que voou" --
comentou Bruno, com uma pontinha de tristeza.
"Outra confidencia?! Hoje  o Dia Mundial das Confidencias?"
--     Voc tambm, Bruno?
O rapaz olhou longamente para a aluna. De um modo novo, de uma maneira que
Fernanda jamais havia se sentido olhada.
-- Eu tambm, Fernanda, eu tambm. Estive noivo, sabe? A gente chegou s
vsperas do casamento, mas...
-- Mas?
-- Ah, a "mulher -- pomba-rola" acabou voando para outro ninho!
Houve um longo momento sem palavras, onde cada um parecia querer ler os
pensamentos do outro, que preenchiam a pausa quase a ponto de faz-la
transbordar.
"Ele est livre agora."
-- Bruno...
-- Hum...
-- Que idade tinha a sua noiva?
-- Hum? Ora, que pergunta! Por que isso?
-- Curiosidade, s...
-- Bom, ela no tinha, Ainda tem uma idade. Est mais viva do que nunca. Uma colega
da faculdade de letras. A mesma idade que eu.
"Que velha!"
--     E voc a amava?
O rapaz suspirou, olhando para o infinito, do jeito que sua me fizera, ao recordar-se
do cantorzinho de Cho de estrelas:
--     Se eu a amava? Acho que sim... muito... ou pouco, pois j acabou. Como dizia
o grande dramaturgo brasileiro Nelson Rodrigues, "ou o amor  eterno ou no era
amor".




A aula daquela sexta terminou sem que os cadernos tivessem sido abertos. Mas Bruno
havia aberto alguma coisa para a aluna. Mais do que um simples caderno. Ele havia
feito uma confidencia, como sua me. Ele havia aberto seus sentimentos para a
menina. E tinha se mostrado frgil. To frgil como qualquer pessoa. To frgil
como Fernanda.
"Ele est livre! Sem namorada! Sem noiva nem nada! Ser que ela era bonita? E eu?
Ser que ele v alguma coisa em mim? Ser que algum v alguma coisa em mim?
Ser que algum nota que eu existo?'
Num relance, seus carinhos atravessaram-lhe o pensamento.
L estavam Clarissa...
"Preciso escrever para ela."
...Daniel...
"O que ser que ele vai pensar recebendo aquela poro de coisas num envelope?
At uma fita gravada e uma folha velha de fichrio!"
...o pai...
"Papai voltou do mdico. O resultado dos exames s chega na semana que vem...
Como ser que ele est? Ser que ainda sente o mesmo amor pela mame?"
... a me...
"Ela  como eu? Ser que tambm era tmida? Mas devia ser muito mais bonita que eu.
Todos queriam paquer-la. Enquanto eu, ningum presta ateno em mim.  como se
eu nem existisse..."
... at Graziela...
"Como ela est feliz! L no colgio todo mundo vai ficar orgulhoso com o sucesso que ela
vai fazer na tev. Eu tambm queria poder fazer sucesso na tev. Mas quem sou eu?"
... e Bruno.
"Ele me olhou hoje de um jeito... O que ele estava pensando? Na certa naquela fedelha
que aparece para as aulas quatro dias da semana. Uma fedelha!  isso o que eu sou?
Uma fedelha? Ai, catorze anos de diferena!  muito! Sou uma fedelha para ele? Ele  um
velho para mim? Tem o dobro da minha idade. Mas eu j vou fazer quinze anos e Bruno
no vai ter o dobro da minha idade. Ah, ah! Nunca mais! Ai, Bruno... Sbado, domingo e
segunda... Agora s vou ter aula com ele na tera-feira. Ai, quanto tempo..."
E Fernanda embalou-se com a imagem bonita de Bruno projetada na tela colorida do
seu adormecer.
                  A matemtica das idades

No colgio, nas duas primeiras manhs da semana, todos os espaos entre as
aulas foram preenchidos pela ansiedade de Graziela e a sesso de fotos da
noite de tera-feira.
"Graziela sempre foi uma estrela. Agora s faltam as fotos desse tal book para os
anunciantes ficarem sabendo disso."
Na tera, o professor de portugus devolveu as redaes feitas pelos alunos na
semana anterior.
--         Fernanda!
"Eu? Ai, e agora?"
--         Aqui est, minha filha. Gostei muito. Um belo texto. Voc est
melhorando bastante! Pena esses poucos deslizes gramaticais. Estude mais,
Fernanda, estude mais!
A terceira nota da classe! Fernanda tinha conseguido a terceira nota da classe!
"O Bruno vai cair duro!"




Quando Fernanda chegou da escola, naquela tera-feira, o ar que circulava entre
o pai e a me estava pesado.
-- Oi, pai, oi, me. O que foi que houve?
-- Seu pai, minha filha -- explicou dona Lusa, num fio de voz. -- O corao no
est bom. Os exames...
-- O que mostraram os exames?
--     Que ele tem uma vlvula funcionando mal. E coronrias muito entupidas...
Fernanda estava de p, imvel, com os olhos arregalados. Perguntou, como se
temesse ouvir a resposta:
--     E ele... vai ter de operar?
Seu Joaquim levantou os olhos para a filha como se tivesse sido ofendido:
-- Eu estou aqui, Fernanda. Ainda no morri. Por que no faz as perguntas para mim?
-- Oh, pai... desculpe...
Com dificuldade, seu Joaquim levantou-se do sof e comeou a subir as escadas.
--     Estou sem fome, Lusa. Almocem vocs duas.
Com o olhar, a me convidava Fernanda a acompanh-la  cozinha.
--     O que houve, me? Conte... -- insistiu ela, falando bem baixinho.
Dona Lusa suspirou:
--     Seu pai foi aposentado por invalidez, Fernanda...
"Invalidez!", pensava a menina percorrendo os poucos passos que a separavam da
casa 6. "Meu pai no presta para mais nada? Coitado do papai..."
Bruno recebeu-a com um sorriso que logo se apagou ao ver sua expresso:
    -- O que foi, querida?
Logo que a porta da saia fechou-se s costas dos dois, Fernanda jogou-se nos braos de
Bruno, enfiou o rosto em seu ombro e chorou seu desespero.




"Professor e psicanalista!", pensava a menina, depois de quase uma hora de desabafo
de sua parte e apoio mais compreenso por parte de Bruno.
J se sentia melhor e at havia tomado o caf que dona Teresinha fizera questo
de coar. Olhou para o ombro da camisa do rapaz. Ali estava impressa a mancha
redonda de suas lgrimas. No sabia se seu alvio vinha das palavras de Bruno ou da
sensao deliciosa de abraar-se a ele, enterrar-se em seu peito e respirar aquele
homem que...
"Homem! Ele  um homem e eu sou... o qu? Uma criana? Eu no sou uma mulher?"
O brao do rapaz ainda envolvia, seus ombros e Fernanda teve de confessar para si
mesma que estava perdidamente apaixonada por Bruno.
"Bruno... meu querido... meu amor impossvel! Ai, por que eu no tenho vinte e cinco
anos?"
Tinha conscincia de que estava iniciando mais um perodo de sofrimento. Havia
escolhido mais um amor impossvel. Mas, naquele momento delicioso, apagou essa
certeza do pensamento e entregou-se por completo  magia do clima de jardim de
primavera que a envolvia com orvalho e tudo.
-- Que idade tem seu pai, Fernanda?
-- Cinqenta...
--  novo ainda. Voc vai ver: agora que est aposentado, ele vai acabar descobrindo
uma poro de coisas que gostaria de fazer e que todos esses anos de trabalho
impediram. Vai descobrir uma forma de realizar-se e aposto que vai tornar-se um novo
homem. Tenha confiana, querida!
--... e mame tem quarenta...
-- Hum? Por qu?
-- Por que o qu?
--      Por que falou da idade de sua me?
"Ai! Por que fui me lembrar disso?"
-- Ehr... no sei...  que, com uma diferena de idade to grande...
-- Diferena? Ora, Fernanda, dez anos de diferena entre marido e mulher no
so nada!
-- Mame tem doze anos mais que voc. E voc tem catorze anos mais que eu.
Bruno sorriu, ainda falando baixinho, com a boca junto aos cabelos da menina, como os
dois tinham passado aquela hora inteirinha:
"Como namorados... Ser que os psicanalistas ficam assim, abraados nas
maluquinhas?"
--     Ora, o que importam as diferenas de idade, querida! Ah, foi bom  gente falar
nisso. Descobri um problema de matemtica que voc vai adorar. E quase mais uma
brincadeira do que um problema de verdade.
Para tristeza da menina, tirou o brao de seus ombros, levantou-se do sof e foi buscar
um bloco sobre a mesa de jantar. Tirou a primeira folha e estendeu-a para
Fernanda.
--     Esse problema  divertidssimo. Copiei para voc.  um exerccio de
raciocnio genial. Leia!
A menina pegou a folha. L estava escrito:
"Eu tenho o dobro da idade que tu tinhas quando eu tinha a idade que tu tens.
Quando tu tiveres minha idade, ambos teremos noventa anos. Que idade eu tinha
quando tu nasceste?"
--     O qu?! Bruno, que loucura  essa? Nem d pra entender direito o que est
escrito!
--Ah, ah! O desafio  esse mesmo, Fernanda. Essa vai ser sua lio de casa. Tente
decifrar o problema. Deixe sua imaginao solta. Matemtica  isso: imaginao a mil!
Como a poesia!
Na hora de sair, Fernanda voltou-se para Bruno:
--     Ah, querido, ia esquecendo, veja!
Tirou da mochila a redao que havia recebido de manh. ' -- Aqui est: a terceira
nota da classe!




Voltou para casa estufada pelos cumprimentos do rapaz, que a abraara de novo e
at a beijara no rosto.
"Um beijo de irmo, n?"
Tocou o rosto, acariciando o toque dos lbios do seu querido, querido, querido....
"E eu tambm o chamei de querido... Ai, Bruno, como eu quero voc!"
                       Um amor impossvel

A Travessa das Perdidas Iluses estava de novo com a cara de sua infncia. Ainda
era a Vila dos Lilases e a casa 6 tinha o jeitinho meio estragado que sempre tivera. L,
ainda        moravam         dona        Slvia,      Clarissa       e...       Daniel.
Os trs ainda eram aquelas remotas criancinhas de quatro ou cinco anos e estavam
nus, examinando-se e descobrindo suas diferenas.
L estava o menino com quem ela sonhara a vida inteira, mas por trs aparecia um
velho de barbas brancas. Era Nelson Rodrigues, que gritava:
--      Fernanda! Ou o amor  eterno ou no era amor! Voc nunca amou Daniel!
Nunca amou de verdade! Voc no sabe amar, Fernanda!
Desesperada, procurou Daniel, seu amor de toda a vida.
--      Ele sabe!Daniel sabe que eu sempre o amei!
Ali deveria estar Daniel, seu sonho secreto de tantas noites, mas quem surgia  sua
frente para receber seu olhar de paixo e splica era... era Bruno!
E os dois sentavam-se no sof, abraados. A casa agora j estava reformada e
Clarissa gritava com ela, ralhava com ela, dizia que Bruno no podia invadir a sua
sala... que Fernanda no tinha o direito de devolver as lembranas de seu irmo...
O garoto no sof j estava grande, como um homem. Um homem de vinte e oito anos!
Um homem impossvel!
Saiu do sonho tremendo, encharcada de desejo e desespero. "Ai, loucura! Voc nunca
ser meu! Nunca! Burra! Impossvel! O amor mais impossvel deste mundo! Ai, Bruno!"




Na manha seguinte, quarta-feira, todo mundo ficou frustrado: Graziela faltou s aulas,
adiando a curiosidade de todas as oitavas. Como teria sido a sesso de fotos com o tal
Emerson?
"Ah, vai ver terminou muito tarde e a Graziela perdeu a aula. Ainda deve estar
dormindo, a folgada."




Sobre a mesinha onde fazia as lies estava um trabalho de cincias como o primeiro
dos deveres daquela tarde. Mas o problema que Bruno dera para ela acabou furando
a fila. Fernanda rabiscou trs folhas do caderno inteirinhas. Puro desperdcio! No
conseguia nem organizar as frases.
"Droga! Diferenas de idade! Bom, no nosso caso, o Bruno tem vinte e oito anos e eu
tenho catorze. Se o problema fosse com a gente j estaria resolvido, porque  claro
que ele tinha esses mesmos catorze anos quando eu nasci. Estaria resolvido?! Ai! Da
 que nada estaria resolvido. Catorze anos de diferena  demais! A idade dele est
mais perto da idade da mame do que da minha! Vou fazer de conta que o problema
 com Bruno e Fernanda. Hum, quando eu tiver a idade que o Bruno tem hoje, ele j
estar com... hum... vinte e oito mais catorze d... quarenta e dois! Puxa!
Quando eu tiver esses mesmos quarenta e dois anos, ele vai estar com... cinqenta e
seis! Puxa e puxa! E, quando eu tiver esses cinqenta e seis, ele estar com... setenta
anos! Nossa, que velho! Isso  idade de bisav! Hum, meu pai tem cinqenta e mame
tem quarenta. Dez de diferena. , no  assim to menos do que catorze. Vamos
continuar. Se o problema fosse com o Bruno e comigo, a soma de cinqenta e seis
com setenta d... cento e vinte e seis anos! Que horror! Bom, mas quando o Bruno tiver
setenta, eu tambm estarei velhssima, com cinqenta e seis. E a, acho que
ningum vai ligar para essa diferencinha de catorze anos."




Graziela faltou tambm  aula daquela quinta-feira. "O que ser que aconteceu? Ser
que eu devo dar uma passada na casa dela? Mas eu nunca pisei na casa 12..."




 tarde, continuavam as dvidas:
"Ai, se eu for l, a Graziela vai me gozar, como faz todas as vezes. Como daquela
vez, com a foto dela rasgada pelo Daniel. Malcriada! Mas e se ela estiver doente? Bom,
eu no sou mdica e nem vou ser".
Voltou ao problema das idades como se estivesse fazendo um quebra-cabea e no um
exerccio de matemtica.
"A diferena! Acho que a chave no est nas idades, mas na diferena das idades!
Vamos ver. Hum..."
No meio das contas, a imagem do professor estava sempre presente, orientando-a,
aquecendo-a...
"Bruno... Para falar esse nome,  preciso fazer biqunho, como aquela aluna rica e velha.
Como se falasse francs. Bruuuno... Bruuunooo...  um nome que beija melhor do
que a prpria palavra beijo."
Sem som, ficou repetindo o nome de Bruno e beijando o ar, beijando o ar,
beijando...




Ainda faltava quase uma hora para a aula com Bruno quando a menina deu um pulo
na cadeira:
"Achei!  dez! A diferena das idades  dez! Igualzinha  diferena entre o pai e a me! O
Bruno nem vai acreditar. Achei!"




Fernanda abriu a porta da casa 6 sem qualquer cerimnia. Dona Teresinha veio
da cozinha, surpresa:
-- Oi, Fernanda! Chegou cedo hoje. O Bruno est l em cima, trabalhando na tese.
Pediu para no ser interrompido.
-- Oi, dona Teresinha.  s um minuto. Bruno no vai ficar chateado.
Fernanda beijou-lhe o rosto e correu escada acima, abrindo a porta do quarto do
rapaz sem nem bater.
--      Bruno, descobri! A resposta do problema  dez!
Com um sorriso de aplauso, Bruno afastou a cadeira de rodinhas de frente do
computador em que digitava seu trabalho e sorriu para a aluna:
--      Boa! Isso mesmo, Fernanda! Mas como voc chegou a essa
concluso?
A menina, com o rosto afogueado de triunfo, abriu o caderno sobre o teclado do
computador, apontando suas contas:
-- Foi assim: chamei a idade que o "tu" tinha de X. Assim, quando o "eu" passou a ter
o dobro disso, o "eu" ficou com dois X, certo?
-- Certo.
-- Bom de acordo com o problema, um dia o "tu" chegou aos mesmos dois X, e, para
isso, levou o mesmo tempo que o "eu" para chegar  idade que o "eu" tem hoje, no
? Tambm, de acordo com o enunciado, para ter dois X, o "eu" levou o mesmo
tempo que o "tu" para chegar aos mesmos dois X, concorda?
--  claro. O tempo passa igual pra todo mundo...
-- Ento! Desse modo descobri que o tempo que se passou entre o passado e o
presente e esse presente e o futuro  igual. Para saber que idade o "tu" tem hoje,
vamos ento dividir por dois o tempo que se passou entre a ocasio em que a
idade do "tu" era X at hoje. quando a idade do "tu" j  dois X. Estou indo bem?
-- Continue...
A menina mal agentava a ansiedade:
--       Um X mais dois X so trs X. Dividindo-se isso por dois,
temos um e meio X. Vemos ento que o "tu" tem um e meio X, a
mesma idade que o "eu" tinha quando o "tu" tinha X. Da, eu vi
que o tempo que se passou entre o passado e o presente e entre o presente e o
futuro  de meio X. Donde, quando o "tu" tiver dois X, o "eu" ter dois e meio X e a
soma dessas duas idades d noventa. Somando-se dois X com dois e meio X, teremos
quatro e meio X, que  igual a noventa, como diz o problema. Noventa, dividido por
quatro e meio d vinte. Se X  igual a vinte, o resultado  este: o "eu" tinha trinta anos
quando o "tu" tinha vinte!
-- Boa!
-- E hoje, o "tu" tem trinta, e o "eu" quarenta; e, quando o "tu" tiver quarenta, o "eu"
estar com cinqenta. Quarenta mais cinqenta d noventa; logo, o "eu" tinha dez
anos quando o "tu" nasceu, e fim do problema!
-- Certssimo. Fernanda!
-- E voc nem imagina que gozado: o problema d certinho com o meu pai e a minha
me. O "eu" chama-se Joaquim e o "tu" chama-se Lusa. Ela tem quarenta e ele tem
cinqenta, a soma de noventa anos do problema! Viu? S que eu j sabia disso antes
de quebrar a cabea tanto tempo...
-- Bravo! E voc foi ainda mais longe, transformando os pronomes "eu" e "tu" em
substantivos!
-- ... nem sei se o problema que voc me deu  de matemtica ou de portugus...
-- Os dois, Fernanda, os dois!
Os dois nem perceberam, mas estavam abraados, comemorando o sucesso de
Fernanda.

                                 Eu           Tu

Passado:                          1,5 x            x

Presente:                          2x              1,5 x

Futuro:                           2,5 x         2x


                      2x + 2,5x = 90

                          4,5x = 90

                            X = 90
                               4,50

                             X = 20




                Iluses desfeitas a fora
Os pais estavam entretidos na novela, depois do jantar, sem nem pensar em
discutir a aposentadoria de seu Joaquim.
Fernanda abriu silenciosamente a porta e foi para a rua. Em meio minuto, estava
 porta da casa 12. Havia luz na janela da frente do sobrado. Deveria ser o quarto
dos pais de Graziela, pois, como em todas as casinhas daquela vila, o quarto "das
crianas" era o dos fundos. Tocou a campainha, um breve toque apenas, tmido
como sua deciso de meter-se na vida da vizinha e colega de escola.
A luz da sala acendeu-se e a porta foi aberta pela me de Graziela.
-- Oh, boa noite... eu...
-- Oi, Fernanda, que bom que voc veio. Minha filha est mesmo precisando de
uma amiga.
--  que eu...
-- Entre, Fernanda, por favor. E suba. Graziela vai gostar de v-la.
-- Aconteceu alguma coisa?
-- Suba, minha filha. Graziela precisa de voc.
Os sobrados da Travessa das Perdidas Iluses eram to gmeos que, se no
fosse pelos mveis, Fernanda poderia visitar todos sem notar que tinha sado da
prpria casa. Subiu as escadas e abriu timidamente a porta do quarto dos fundos.
--     Oi, Graziela, vim te ver.
Jogada de bruos em cima da cama, que ficava no mesmo canto que a de Fernanda,
Graziela levantou o rosto. Um rosto vermelho de tanto chorar e com uma marca roxa,
grande, em uma das faces. -- Ai, Fernanda...




O ombro consolador dessa vez foi o de Fernanda. Graziela abraou-se a ela e chorou
como gente, como amiga, sem qualquer amostra da estrelinha arrogante e
conquistadora das atenes dos garotos da escola.
Emerson... A sesso de fotos havia comeado cheia de charme, de elogios, de
envolvimento. Em cima de um div, coberto por lenis de cetim vermelho, Graziela
tinha feito todas as poses que o diretor pediu, com o dedinho na boca, com os lbios
entreabertos e os olhos semicerrados, abraando as pernas. Emerson a tocava,
ajeitava-a para as poses necessrias s fotos, sempre elogiando sua beleza e falando
do futuro maravilhoso que a aguardava.
-- Tudo parecia to perfeito, Fernanda. Tinha at uma msica no toca-fitas, uma
msica suave... Ele dizia que era para ajudar o clima. Que fotografar  o mesmo que
representar, que uma modelo  uma atriz, o primeiro passo para ser uma atriz, para
trabalhar em novelas. Na hora de me ajeitar na pose, me abraava, roava sempre no
meu corpo... Elogiava meu perfume, dizia que minha pele cheirava bem, acariciava
meus cabelos... Eu no desconfiei de nada, estava completamente envolvida.
Fascinada... At que ele disse que, para o book ficar completo, era preciso fazer
algumas fotos para anncios de lingerie.
Enterrou o rosto no colo de Fernanda, falando com a voz abafada pelo corpinho da
amiga. Precisava falar, mas tinha vergonha do que tinha a dizer.
--      Pediu para eu tirar a roupa. Queria me fotografar s de calcinha e suti. Eu
tentei dizer que no, que meu pai nunca iria me deixar fazer anncios assim. Ele
insistiu, com uma voz calma, dizia que no tinha nada demais, que era como estar na
praia, de maio. E eu... e eu acabei concordando, Fernanda!
Voltou a chorar, soluando, abraada em Fernanda, que lhe alisava os ombros sem
nada dizer, do mesmo jeito que Bruno fizera.
--      A... a... ele se transformou. Comeou a elogiar meu corpo, me agarrou. Eu
tentei escapar, ele me agarrou mais forte, comeou a me beijar  fora... Eu gritei, ele
rasgou meu suti... tentei correr... ele me alcanou, me chamou de vagabunda, gritou
que no era palhao de moleca nenhuma, que eu tinha de pagar pelas
fotos. Que se eu queria o sucesso eu tinha de aprender a comprar os outros com o
meu corpo...
Dessa vez o acesso de choro foi longo, como se a menina tivesse perdido seu ente
mais querido. Fernanda deixou-a chorar, apenas apertando-a forte, para mostrar que
estava ali, ao seu lado, e que no a deixaria.
--      Consegui fugir, corri para a rua tentando me vestir... Chorando, o sangue
escorrendo do nariz, o rosto latejando com a bofetada, o orgulho doendo com a
palavra "vagabunda". Vagabunda, Fernanda! Vagabunda!
O batismo de fogo de Graziela como uma famosa modelo tinha acontecido. Agora, a
menina j conhecia um pedao do inferno. Tinha estado com o prprio demnio.
O pai de Graziela tinha querido ir  polcia, levar a filha para fazer exame de corpo de
delito no Instituto Mdico-Legal. Dizia que ia botar "esse tarado na cadeia", mas os dias se
passaram sem que aquele humilde funcionrio encontrasse coragem para enfrentar
algum que ele julgava poderoso. Alis, como todos os pais daquela vila pensavam,
qualquer pessoa fora dali era poderosa.
-- Quem sou eu? -- Fernanda tinha ouvido o pobre do seu Viveiros choramingar. --
Onde vou arranjar dinheiro para os advogados? Ah, nesta cidade devia era ter uma
boa Mfia! A esse canalha ia ver uma coisa! Meu av era da Siclia! Da Siclia! L, no
tem nenhum tarado vivo! Nenhum!
Assim, como sempre acontecia na vida dos moradores da Travessa das Perdidas Iluses,
os sapos foram devidamente engolidos.
E a semana seguinte se passou sem Graziela voltar  escola. Enquanto a mancha
roxa no desaparecesse de seu rosto, ela no conseguiria encarar os colegas.
Fernanda trazia as matrias de cada dia para Graziela e as duas passavam as tardes
juntas, conversando, estudando, trocando confidencias, consolando-se.
Fernanda encontrara uma nova Clarissa. E Graziela encontrara uma amiga que
nunca tivera.




Seu Joaquim tinha ido ao mdico novamente e dona Lusa o acompanhara. Os
exames seriam demorados dessa vez.
Fernanda convidou e Graziela aceitou. Iam almoar juntas na casa de Fernanda.
Resolveram caprichar e experimentar receitas novas.
-- Vou te ensinar um molho de macarronada que vai deixar voc maluca, menina!
-- U... -- estranhou Fernanda, com a cara mais malandra desse mundo. -- E os
regimes? E a forma, que sempre foi sua maior preocupao?
-- Esquece, Fernanda! Nunca mais quero ser modelo! Se eu engordar, melhor!
-- Que isso, Graziela!
-- Cansei, Fernanda! Cansei de ser a gostosa e burra. Vou mudar, minha amiga.
Nenhum homem mais vai ter a coragem de me meter  mo na cara! Nem de me
chamar de vagabunda. Vou mostrar a todos eles. Agora voc vai conhecer a Nova
Graziela! Graziela Viveiros! Este e meu nome!
-- E vou gostar dela, querida. Mas no precisa engordar s por causa disso!
--Pode deixar. S vou abusar hoje. Estou aliviada. Feliz demais!
A violenta bofetada no rosto perfeito de Graziela tinha mudado muita coisa dentro da
menina.
O molho do macarro estava timo mesmo, depois que as duas conseguiram
combinar os palpites. Era uma mistura da receita siciliana de Graziela com o molho
calabrs que Fernanda tinha aprendido com a me.
-- Vamos abrir um restaurante, menina! -- comemorava Graziela depois que as duas
terminaram. --Todo mundo vai querer o "Macarro a l Perdidas Husoes"! Com o molho
especial criado pelas famosas Fernanda e Graziela!
-- Boa! Vamos faturar com o Orestes Barbosa!
-- E quern  esse?
-- O autor da letra de uma musica chamada Cho de estrelas, onde tem um verso que
diz "palhao das perdidas iluses". Acho que tem algum vereador que gosta desse
Orestes Barbosa e resolveu fazer uma homenagem a ele mudando o nome da nossa
vila. Ento, ns j sabemos: nosso restaurante vai chamar-se Cantina das Perdidas
Iluses!
Cansaram-se de rir enquanto lavavam a loua e acabaram exaustas no quarto de
Fernanda, sentadas no cho.
--Perdi minhas iluses de ser uma famosa modelo, Fernanda. E voc? Tambm tem
suas perdidas iluses?
--      Nunca pensei em ser modelo, Graziela. Metade de mim 
vergonha e a outra metade quer esconder-se debaixo do tapete!
Outra srie de gargalhadas, at a insistncia de Graziela: -- Vamos, menina. "Perdidas
iluses" no tem nada a ver com profisso. Isso  coisa de dor de cotovelo, isso  coisa
de paixo... Fernanda avermelhou.
-- Bom, eu tenho, n? E claro que eu tenho.
-- ... eu sei bem que voc tem.
--Ei! -- protestou Fernanda. -- Voc est pensando no Daniel, no ? Por causa daquela
histria da foto. Mas fique sabendo que... Graziela cortou:
-- No preciso ficar sabendo de nada, Fernanda, porque eu j sei de tudo. Pensa
que eu sou boba? Que eu nasci ontem? O Daniel j era! A nica coisa que continua
igual  o endereo. Agora, o seu xod  um professor charmoso, que usa malhas
elegantes, de gola alta... Um gato de dar inveja!
-- Espera a, Graziela, no pense que eu...
-- Quietinha, querida! Eu no sou cega. E voc escolheu muito bem,
maravilhosamente bem!
--    Graziela... Graziela... eu...
Abraaram-se.
"Esse tempo todo... Graziela olhava para mim... eu importava para ela! Algum me
notou nessa vila! Para algum, eu sou algum)"




                Os pais no podem morrer
A serenata de Cho de estrelas andava desaparecida da casa de Fernanda.
Dona Lusa deslizava pela casa, sempre em silncio e de cabea baixa. O
corao de seu Joaquim parecia tambm arrastar-se, batendo s o suficiente para
prolongar a agonia. Naquela sexta-feira, Fernanda voltou da escola e o pai no
estava na sala. Trancara-se no quarto. O rosto da me afogueava-se, vermelho,
por suas tentativas de enxugar as lgrimas antes da chegada da filha.
--  o pai, no , me?
-- , sim, Fernanda. Infelizmente  isso mesmo. Fui falar com o mdico do
convnio dele hoje de manh. E agora o diagnstico  definitivo. Lembra-se do
dia em que voc perguntou se seu pai precisava operar-se?
-- Lembro. Foi depois do resultado dos exames. H uns quinze dias.
-- Pois voc estava certa. O jeito  operao mesmo, minha filha.  operao,
sim, seno ele no vai durar muito.
Deixou-se agarrar pela filha e as duas choraram juntas, abraadas, tentando
conter quaisquer rudos que pudessem ser ouvidos l em cima pelo pai.
--     Ento, me? -- Fernanda falava baixinho, mas com insistncia. --  claro
que ele vai ficar bom com a operao. J ouvi falar de um monte de pessoas
que operaram o corao e esto muito bem. Tenha f. Para quando foi marcada a
operao? Quando o pai vai ser internado?
-- Eu tenho f, minha filha, muita f, mas...
-- Mas o qu?
-- O convnio mdico no cobre esse tipo de cirurgia.




"Pai! E agora, pai? Os pais no podem morrer! Pai no pode morrer! Me no pode
morrer! Os filhos no podem ficar sozinhos, meu papai!"
O almoo no sara naquele dia. O que houve foram s lamentaes sobre o sufoco
da fila que seu Joaquim teria de enfrentar para conseguir operar-se em um hospital
pblico.
-- Pra isso, s tendo pistolo, Fernanda. E quem a gente ? Quem a gente
conhece?
Depois da revelao, tudo o que Fernanda conseguira fazer naquele momento de
crise foi trancar-se no quarto e molhar o travesseiro.
"Ai! E se meu pai no agentar essa espera de vaga no hospital pblico? E... e se papai
morrer? Ele tem razo! Tem razo quando fala mal do governo! Que governo  esse
que deixa gente pobre morrer na fila dos hospitais? Preciso de algum importante! Mas
eu no conheo ningum..."
De repente, lembrou-se:
"E o Bruno? Ele  to bem relacionado l na faculdade! Ser que ele no pode fazer
alguma coisa?"
Saiu silenciosamente do quarto e passou pela me, que soluava na cozinha,
baixinho, sem querer chamar a ateno de ningum, sozinha com sua dor. Fechou
a porta da frente sem um rudo e logo estava na casa 6, tocando a campainha.
--     Oh,  voc, Fernanda? -- cumprimentou dona Teresinha, afastando-se da porta.
-- Entre, entre, minha filha...
Aquele no era um momento para timidez, nem para vergonha.
-- Dona Teresinha, sabe onde est o Bruno agora?
-- Deve estar no Departamento de Letras, falando com a orientadora da tese
dele. Por qu?
-- Ser que a senhora poderia localiz-lo pelo telefone?  que  meio urgente...




Em poucas horas, o milagre tinha sido realizado. Fernanda falara com Bruno por
telefone e, em seguida, o jovem ligara para um colega seu de colegial, cirurgio
cardaco formado, que deu um jeito de arranjar uma vaga no Instituto do Corao.
Ainda no eram quatro horas da tarde e um txi j tinha sado da Travessa das Perdidas
Iluses levando seu Joaquim, dona Lusa e as esperanas de Fernanda. Graas a
Bruno, seu Joaquim seria operado no maior hospital da Amrica Latina!
Os preparativos para a cirurgia comeariam naquela mesma noite. Seu Joaquim
estava internado num quarto com outros trs aspirantes a operados, onde
naturalmente no poderia dormir um acompanhante da famlia. Mas estava claro
que dona Lusa no aceitaria ficar longe do marido, no fim do mundo que era o
endereo da Travessa das Perdidas Iluses. Mais uma vez foi Bruno que salvou a
situao. Um colega seu de faculdade morava com os pais na Avenida
Rebouas, a duas quadras do Instituto do Corao, onde o quarto de empregada
estava vago. Dona Lusa mudou-se para l no mesmo dia e Fernanda...




-- Ah, Lusa! -- tinha decidido dona Teresinha, cujo relacionamento com a vizinha j
abolira os "donas" no tratamento entre elas. -- Imagine se eu vou deixar a Fernanda
dormir sozinha em casa! Ela vai  ficar aqui conosco at essa fase passar.
-- Mas Teresinha... que incmodo! O seu filho...
-- Bruno vai dormir na sala, Lusa. Fernanda vai ficar no quarto dele.




A internao tinha ocorrido na sexta-feira. No horrio de visitas do sbado, Fernanda
tinha ido ao Instituto do Corao com dona Teresinha, Bruno e Graziela.
O pai estava otimista, ao contrrio dos ltimos tempos, porque a simpatia do chefe da
equipe cirrgica o havia conquistado.
-- Um professor famoso, Lusa! -- informara ele, deitado no leito hospitalar e com o
peito cheio de fios que mostravam o bater fraquinho de seu corao em monitores de
tev. -- D aulas de cirurgia cardaca at nos Estados Unidos. Nos Estados Unidos!
 noite, de volta a casa 6, depois de um lanche no lugar do jantar, dona Teresinha,
Bruno e Fernanda deixaram a noite cair ouvindo msica e conversando, entre
aliviados e apreensivos com a situao de seu Joaquim. Os olhos da menina no
conseguiam desviar-se do rosto de Bruno.
"Nunca vou encontrar algum como ele. At da minha famlia ele est cuidando... at de
mim! Oh, papai adoraria ser o sogro dele! Por que eu no nasci antes? Meu
impossvel Bruno!"




                        O instituto dos coraes

J era mais de meia-noite e Fernanda estava no quarto de Bruno, que tinha sido
de Clarissa e Daniel.
Sentada na cama sobre os calcanhares, pegou um bloco e comeou uma carta para
Clarissa, tentando comunicar a operao do pai. Falaria de Bruno? Falaria que
estava, naquele momento, no mesmo quarto que Clarissa tinha dormido quase a vida
inteira? No quarto que agora pertencia a um homem charmoso, delicado, que lhe
dava aulas particulares e no lhe saa do pensamento? Um homem catorze anos mais
velho do que ela? No conseguiu passar das primeiras linhas. Sua cabea no estava
conseguindo transportar-se para guas Belas.
"Papai vai ficar bom, depois que for operado l no Instituto do Corao. O mdico 
timo. D aula at nos Estados Unidos! Vai operar o papai e ele vai ficar como novo,
tenho certeza! Ai, mas quem vai operar o meu corao? Como tirar de dentro dele
essa paixo to impossvel?"
O quarto estava to mudado! Era como se Clarissa e Daniel nunca tivessem morado
ali. Uma das paredes tinha sido coberta por estantes com livros.
"Como o Bruno  inteligente! Ser que ele consegue ler tudo isso?"
Lentamente, percorreu as lombadas: nomes em francs, ingls, espanhol e um
monte em portugus. Ali deviam estar todos os autores de barba branca de que seu
professor falava na escola.
Havia um pequeno aparelho de som, fitas e CDs. Dedilhou os discos, procurando
conhecer um pouco mais da sensibilidade de seu dono,
"Quando ele est triste, qual desses discos ele ouve? E quando est apaixonado? O
que ele ficou ouvindo depois que rompeu com a noiva? Como ser ela? Uma
professora... Ser que ele ainda est apaixonado por ela? Ele disse que no, que o
amor era pouco. Ser mesmo?"
No havia cartazes com atrizes de peito de fora. As paredes, cobertas pelos livros, no
deixavam espao para cartazes. Acima da mesa com o computador, onde Bruno
trabalhava, estava pendurado um quadro com uma foto de um grupo de rapazes e
moas. Devia ser da sua formatura. Era um grupo alegre, risonho, de jovens bonitos e
dispostos  conquista do mundo. Fernanda reconheceu Bruno facilmente. Estava
igualzinho. No havia engordado ou emagrecido. De p, na ltima fileira, era o mais
srio do grupo.
Ao lado do computador desligado, uma pilha de papis. Na primeira folha estava
escrito: "O Romantismo tardio na literatura francesa da segunda metade do sculo
XIX".
"Que nome mais comprido! Romantismo tardio... Minha paixo  precoce, Bruno. Eu 
que nasci tarde demais."
A mesa era comprida e, na outra extremidade, havia um frasco da famosa colnia, um
tubo de desodorante, um pente e uma escova de cabelo. Destampou a colnia e
colocou um pinguinho nas costas da mo esquerda. De olhos fechados, aspirou
profundamente o perfume. Sentiu algo como embriaguez, sabendo que a sensao
no se devia ao pouquinho de lcool contido na colnia. Usou tambm o desodorante.
Ficou com cheiro de Bruno.
A pele do rapaz estava presente em tudo, envolvendo a menina como magia. At o
calor do seu corpo, que Fernanda adorava sentir durante as aulas, quando Bruno se
debruava sobre ela e algum livro, comentando um trecho, parecia ocupar todo o
quarto, aquecendo-a, embalando-a, acalmando-a...
Com o pente, percorreu as cerdas da escova, retirando alguns fios de cabelo. Cabelos
de Bruno... De seu fichrio, destacou uma folha, fazendo com ela um envelope onde
foram guardados os preciosos fios. Sua nova Arca de Tesouros estava progredindo.
Abriu o armrio de Bruno, tremendo com a ousadia daquela invaso. Camisas, calas,
palets pendurados. Pegou a manga de uma camisa e cheirou-a. Cheiro de roupa
lavadinha, caprichada. Capricho de dona Teresinha.
"Se ela fosse minha sogra, eu nunca ia brigar com ela."
Abriu uma.gaveta. Roupas de baixo, meias... Tocou em tudo, sem desarrumar. Com
cuidado, pegou uma pea e encostou-a no rosto, sentindo a carcia do tecido.
"Bruno..."
A cama' tinha acabado de ser feita pela dona da casa. Fernanda enfiou-se sob as
cobertas, imaginando que os lenis e a fronha no tinham sido trocados. Que,
naquela mesma superfcie macia do travesseiro, a cabea de Bruno estivera repou-
sando. Que, debaixo daqueles lenis, Bruno inteiro tivesse se abrigado.
Adormecendo, o aquecer-se do seu corpo pareceu-lhe o calor do corpo do rapaz,
como se ele estivesse ali, deitado junto com. ela.
"Ai, Bruno..."
Como estava combinado, Graziela chegou  casa 6 s oito horas, no dia seguinte,
um domingo encoberto, friorento, ameaando garoa. Ia acompanhar Fernanda na
visita a seu Joaquim.
-- Entre, Graziela -- convidou dona Teresinha. -- Acabamos de tomar o caf da manh.
Venha sentar-se aqui. O caf est quentinho, na garrafa. Tem leite e chocolate. Bruno
acabou de trazer o po. Tem gelia de morango e eu j amoleci a manteiga no micro-
ondas. Fiz uns bolinhos de chuva que esto uma delcia!
-- Ah, dona Teresinha! J tomei caf.
-- , mas bolinho de chuva aposto que voc no comeu. Experimente pelo menos
um...




--J pensou quando todo mundo l no colgio ficar sabendo que voc dormiu na
cama do Bruno? -- Graziela estava excitada com a noite de Fernanda.
No primeiro nibus que as duas tinham de pegar at o Instituto do Corao, Fernanda
protestava, sem tentar esconder sua prpria excitao:
-- Ei, nada de fofoca, menina! Seno o pessoal vai pensar que o Bruno estava na
cama junto comigo!
-- Que loucura, menina! Aposto que foi justamente isso que voc imaginou enquanto
esperava o sono chegar!
-- Graziela! Quer parar?
A amiga continuava a perguntar e a conversar, encurtando o tempo da viagem. Era
como se sempre tivessem sido amigas. Como se Fernanda jamais tivesse se rodo de
inveja da beleza e do sucesso de Graziela com os garotos.
quela hora do domingo, o nibus estava vazio. Olhando a garoinha que molhava de
leve, mas insistentemente o asfalto, Fernanda pensava como era gostoso ter Graziela
como amiga, em vez de uma rival impossvel de vencer na disputa por Daniel. Uma nova
Graziela! Ou a mesma, s que vista com outros olhos por Fernanda.
"Ela  bonita por dentro tambm."
Os olhos de Fernanda estavam mudando. O mundo, para Fernanda , estava com
outro jeito, com outra alma.
"E com a cara de Bruno..."




                          Num palco iluminado
O tempo passou com sobressaltos, mas, duas semanas depois da internao,
caminhou para um domingo em que s faltava ser Natal para que aquela tosse a
melhor noite do ano.
A operao de seu Joaquim tinha sido um sucesso. Quatro artrias coronrias haviam
sido substitudas e, em seu peito, estava implantada uma vlvula artificial
modernssima que lhe regularia para sempre o bater do corao. Mais alguma coisa
aquele mdico milagroso tinha conseguido com o corao de seu Joaquim: nas visitas
que a famlia fazia durante sua convalescena, o operado mostrava-se entusiasmado,
falando de futuros, de planos e, o que era melhor, parecia ter renovado o amor que
um dia conseguira roubar dona Lusa do tocador de serestas ao violo. Do amor que
havia gerado Fernanda. Estava carinhoso e otimista. O que mais se poderia querer?
Na manh seguinte, seu Joaquim estaria de volta  Travessa das Perdidas Iluses,
com a sade e as iluses recuperadas. Depois da visita, dona Teresinha permaneceu
com a me de Fernanda para ajud-la na pequena mudana necessria  volta ao lar.
S retornaria a casa 6 bem mais tarde.
Fernanda, Bruno e Graziela nada podiam fazer para ajudar naqueles pequenos
preparativos e ficou decidido que voltariam antes. J estava bem escuro quando os trs
desceram do segundo nibus. Percorrendo a ruazinha da vila, com Bruno de um lado e
Graziela de outro, Fernanda quis prolongar a alegria e o alvio que sentia:
-- Esta noite  especial e eu convido vocs dois para um jantar muito especial que
eu mesma vou fazer!
-- Ora, mas que convite irresistvel! -- riu-se Bruno.
-- Ah, ah! S o que tem de esquisito  que voc est sendo convidado a jantar na sua
prpria casa, Bruno! Isso est combinado com a sua me desde ontem. Fui com ela 
feira e compramos tudo. Vocs vo adorar, modstia  parte!
Quando chegaram  casa 6, a iluminao da rua revelava uma expresso cmplice e
meio safada de Graziela quando falou para os dois:
-- Ora, mas que pena, Fernanda! Voc no fica chateada se eu no aceitar o convite?
Prometi para a minha me chegar cedo em casa. Meus tios vo aparecer para uma
visita.
-- Ah, Graziela!




O pequeno aparelho de som de Bruno tinha descido para a sala e rodava uma cano
delicada, em francs, na vo2 de um cantor que Fernanda jamais ouvira. Mas que era
uma carcia sonora.
Quando, triunfante, passou da cozinha para a sala trazendo a travessa com seu jantar
caprichado, Bruno havia preparado o ambiente. Ele mesmo pusera a mesa e, sobre
dois piresinhos de caf, acendera duas velas comuns. Para Fernanda, pareceram dois
candelabros de ouro, colocados sobre uma mesa de banquete.
Bruno apagou a lmpada pendurada no fio sobre a mesa e os dois sentaram-se frente
a frente, apenas iluminados pelas duas linginhas amarelas. A luz fraca e a voz
rouca do cantor francs tornavam o ambiente aconchegante, sensual, maciozinho...
Quase no falavam, mas quando alguma frase era pronunciada, as vozes saam
tambm roucas, como se fosse necessrio falar baixo para no perturbar a
concentrao do cantor. -- Vamos danar, Fernanda?
Bruno levantou-se e estendeu a mo para ela. Fernanda aproximou o corpo lentamente
do corpo de Bruno. Ele era bem mais alto do que ela e seu rosto encostou-se na malha
de gola alta, como naquela tarde em que o ombro enxugara suas lgrimas. Mas
Fernanda, naquele momento, estava muito, muito longe de chorar. Deixou-se conduzir
docemente no embalo das palavras ininteligveis da cano. No precisava entender
francs. Aquelas palavras falavam a linguagem universal do encontro. Palavras que
Fernanda escrevia de olhos fechados. Sentia-se num palco iluminado, vestida de
dourado, envolvida por salpicados pedaos de estrelas a girar pelo cho, onde os dois
pisavam distrados, enlevados... "Danons, joue contrejoue..."
Ainda embalados suavemente pela cano, o rosto de Bruno descolou-se de seus
cabelos e afastou-se um pouco para olh-la. Era uma sombra mal-iluminada pela luz
das velas. Mas seus olhos brilhavam no mesmo tom do sorriso. Os lbios do rapaz
pareciam prontos a descer na direo dos seus. Os dela estavam entreabertos
receptivos... "Bruno..."
Fechou os olhos novamente,  espera. Em sua mente, o momento acontecia no ritmo
lento da msica, da luz das velas. Lembrou-se de tudo que estava mudando em sua
vida, na transformao de uma rival em amiga, na nova amiga que sofrer tanto com a
destruio de seu sonho de tornar-se uma modelo famosa. Um sonho destrudo por
um homem mais velho, que tinha tentado aproveitar-se do sonho de Graziela
para...
"Um homem mais velho! Emerson... Bruno!"
De repente, a imagem de Bruno transformava-se na descrio daquele Emerson,
daquele agressor, do destruidor cruel dos sonhos de Graziela. Um homem mais velho,
envolvente...
"Para conquistar o que voc quer, garota, voc tem de aprender a comprar os outros
com o seu corpo!"
"Um homem mais velho! Como... como Bruno!"
Soltou-se do abrao, transformando a magia do momento em pnico.
--     O que foi, querida?
Cambaleou um pouco, dando dois passos para trs e encarando o rapaz, que a
olhava sem compreender.
-- O que foi?
-- Nada.  que eu... me desculpe...
Voltou-lhe as costas e correu escadas acima, trancando-se no quarto.
O sono no veio, nada veio, nada conseguia sobrepor-se s emoes e aos medos
to novos na experincia de Fernanda. No acendeu a luz do quarto. Despiu-se, vestiu
a camisola e jogou-se na cama sobre as cobertas. No conseguia fazer diminuir o
ritmo acelerado de seu corao. Era como se a imobilidade fosse incapaz de acalm-
la. O corpo estava imvel, mas os pensamentos corriam uma verdadeira maratona,
tropeando uns nos outros sem saber onde ficava o ponto de chegada.
O tempo foi passando. Quanto tempo? Era impossvel dizer. Ouviu rudos no corredor
entre os quartos e o banheiro. Dona Teresinha devia ter chegado. Portas abriram-
se e fecharam-se.
Depois, s o silncio da noite. O que ela havia temido? Que Bruno fosse como
Emerson? Um canalha estuprador de adolescentes? Ou, na verdade, tinha medo de si
mesma, temia passar de uma menina colecionadora de amores em caixas de
papelo a uma mulher que acreditava na possibilidade da concretizao dos sonhos?
O sonhos so possveis? Podem ser realizados? Podem sair de dentro das caixas
para tornarem-se vida?
"Levantou-se e abriu a porta. Saiu para o corredor escuro e desceu as escadas
silenciosa como um gato. O espao oco e negro da sala envolveu-a. Aonde ela pretendia
ir?  cozinha? Buscar um copo d'gua? Por que tinha levantado da cama? Por que
havia descido as escadas?
O espao da sala era escuro, mas no estava vazio. Sem nada ver, Fernanda
percebeu nitidamente a presena quente de Bruno, de p,  sua frente, no mesmo
silncio. Talvez com a mesma inteno da menina, que ela nem sabia qual pudesse
ser.
Sentiu mos suavemente apoiadas em seus ombros. Os corpos colavam-se, dessa
vez numa dana sem msica. O rosto daquela sombra oculta pela escurido
novamente descia para ela.
"Bruno..."
"Fernanda..."
O que seus lbios haviam tremido para conceder ainda h pouco, ao som do veludo
da voz francesa e de que sua cabea sempre em obras a havia feito fugir, agora
derramava-se sobre ela, fazendo daquela primeira vez, daquele primeiro beijo, uma
doce realidade.
Naquele instante, Fernanda descobriu que sonhos podem ser vividos de verdade.




                            Um possvel amor
Ele no  como esse Emerson! Ele no  como ningum.
Ele  nico!  meu!
Depois daquele maravilhoso encontro s escuras, sem uma palavra, Bruno havia
conduzido a menina de volta ao quarto. Fez com que ela entrasse e fechou a
porta suavemente.
"Boa noite, Fernanda."
Boa? Aquela tinha sido a maior noite de sua vida! Acordou com festa na alma. Quando
desceu, dona Teresinha preparava o caf.
-- Bom dia. Dona Teresinha!
-- Bom dia, Fernanda.
-- Cad o Bruno?
--J saiu para a faculdade. O caf est pronto.
--      Ai, desculpe, dona Teresinha, mas vou correndo para casa.
O papai vai chegar bem cedinho do hospital! Pode ser que ele chegue antes de eu
ter de ir para a escola!
Saiu sem perceber que a expresso de dona Teresinha estava estranha, muito
estranha.




O pai ia voltar cedo do hospital, mas nem tanto, e Fernanda acabou indo para a
escola sem o caf da manh.
A manh transcorreu como se a escola no fosse de verdade, como se as aulas no se
repetissem, uma atrs da outra, e como se os professores fossem fantasmas. O
mundo de Fernanda estava mudado. Tinha se transformado na noite anterior e ficaria
completo logo mais, quando ela tivesse o pai de volta a casa, sadio e feliz. A felicidade
estampava-se em seu rosto e s Graziela no achava estranho aquele sorriso que no
se apagava mais.




A tarde toda foi um acontecimento na Travessa das Perdidas Iluses. Quase todos os
moradores fizeram questo de dar uma passadinha para cumprimentar seu Joaquim
pelo sucesso da operao.
E o operado recusava-se a ser um convalescente. No aceitou ficar na cama e muito
menos de pijama. Vestiu-se como se fosse sair, de gravata, palet e tudo, do jeito que
antes trabalhava no escritrio de contabilidade. Recebia as visitas na porta e para l as
levava de volta, falando alto e dando gargalhadas que dona Lusa e Fernanda no
ouviam h muito tempo.
-- Obrigado por ter vindo, vizinho. Eles me aposentaram. Mas estou novo em folha!
Agora vocs vo ver do que eu sou capaz. Estou pensando em comear um negcio
que...
Nas segundas-feiras, Bruno almoava na faculdade e s chegava  noite. Fernanda
ficou pensando que o relgio tinha alguma coisa contra ela, pois teimava em fazer
cada hora durar os mesmos sessenta minutos e cada minuto os mesmos arrastados e
aborrecidos sessenta segundos.
-- Me? Voc me responde uma pergunta?
-- Por que no, Fernanda?
-- O pai est como novo, no?
-- Est sim, puxa! Felizmente, est sim!
Na cozinha, dona Lusa coava mais um bule de caf para servir s visitas que se
sucediam. Fernanda aproximou-se dela, bem juntinho.
--Mame, voc casaria com o papai mesmo que ele tivesse o dobro da sua idade?
-- Ora, Fernanda! Para isso ele teria de ter oitenta anos!
-- No, me! Estou falando de antes, quando vocs se casaram! O que eu quero
saber  se...
A me virou-se da frente do fogo e olhou para a filha, j mais alta do que ela. Seus
olhos revelavam muito mais compreenso do que aquela mulher poderia ter adquirido
em apenas quarenta anos de vida. Ali havia sculos de compreenso.
-- Eu sei do que voc est falando, minha filha. Se eu tivesse catorze e ele vinte e oito
anos, eu correria atrs dele e no o deixaria escapar por nada deste mundo.
-- Como?! O que voc est dizendo?
A expresso de dona Lusa estava uma delcia! Ah, que sorriso gostoso, de amor,
carinho, apoio! Fernanda abraou-se a ela, apertado:
--     Eu te adoro, mezinha! Eu te adoro!
Anoiteceu finalmente, e Fernanda atravessou a ruazinha. Antes que batesse  porta da
casa 6, dona Teresinha abriu-a como se a estivesse esperando.
--     Entre, Fernanda.
 menina obedeceu, um pouco surpresa com o jeito daquela senhora.
--     O Bruno j chegou?
Um suspiro foi  primeira resposta de dona Teresinha. A segunda foi um desastre:
--     Bruno no vai voltar, querida. Ele tem de terminar umas pesquisas para a tese
da faculdade e vai ter de morar mais perto de l. Vai dividir um apartamento com um
colega.
"Como? O que est acontecendo?"
--     Ele vai se mudar? Mas...
Dona Teresinha estendeu um envelope para ela: -- Vai, sim, minha filha. Mas pediu
para eu entregar esta carta para voc.
Sem conseguir esconder o pnico, Fernanda pegou o envelope. No estava colado.
Dentro, uma folha de papel com a letra de Bruno:




Querida Fernanda,
Lembra-se daquele problema de matemtica que voc resolveu? Lembra-se do "eu" e
do "tu"? Pensei muito, foi difcil, mas cheguei  concluso de que eu no sei resolver
esse problema. Aquela questo das diferenas  uma loucura impossvel.  uma
condio insolvel. Nem a matemtica nem a literatura podem resolver essas
diferenas. Talvez, olhando a partir da sua margem da vida, voc possa anular essa
distncia; da minha margem, ela  intransponvel. O rio que corre entre ns ter
sempre a mesma largura.
Voc foi uma descoberta, algo que eu no esperava que viesse a acontecer. Jamais
poderei esquecer essa doce, maravilhosa descoberta que coloriu minha vida para
sempre. Mas, infelizmente, no  possvel possuir essa descoberta. Ela continuar
comigo como a mais doce e eterna das recordaes.
Adeus, minha menina. Ah, seja feliz, por favor, por mim, seja feliz.
 tudo o que eu peo.  tudo com que eu sonho.

Para sempre, Bruno.




A cor devia ter-lhe fugido do rosto e era impossvel controlar o tremor das mos. Nada
conseguia ver  frente. Naquele momento, no havia mais frente em sua vida. No
havia mais cho sob seus ps.
Dona Teresinha pegou-a pela mo e levou-a para o sof. Fez com que se sentasse.
-- Fernanda, me oua...
A voz daquela senhora mal conseguia formar sentido em sua mente. Agarrava as duas
mos de Fernanda, com fora e insistncia e, aos poucos, os olhos da menina
conseguiram encar-la.
-- Minha filha, eu conheo muito bem o meu filho e aprendi a conhecer voc. E a gostar
muito de voc. Sei o que est acontecendo e posso imaginar muito bem o que deve
estar passando pela cabea do Bruno neste momento. Do mesmo modo, sinto o que
voc est sentindo agora e compreendo.
-- Como? Eu...
-- Minha filha, j tenho a idade que preciso ter para acreditar que o impossvel  uma
coisa muito triste quando a gente o aceita.
-- Eu... no estou entendendo... Da cozinha vinha outra pessoa.
-- Graziela?! O que voc est fazendo aqui?
-- Estive conversando com dona Teresinha, Fernanda. Oua o que ela tem a dizer.
-- Dona Teresinha, o que est havendo? O que vocs duas conversaram?
-- Acho que no preciso explicar nada, Fernanda. So seis e meia. Se voc pegar um
nibus agora, mesmo com esse trnsito, vai estar na Cidade Universitria l pelas sete
e meia. A aula do Bruno vai estar comeando. Tente chegar antes.
-- Como? Onde?
--J expliquei  Graziela. Ela vai com voc at l. Ela sabe como chegar ao
Departamento de Letras. V, minha filha.
Fernanda estava paralisada, e coube s outras duas tir-la do torpor.
--     Vamos, Fernanda. O trnsito  horrvel nessa hora. Precisamos nos apressar.
Venha.
Dona Teresinha, delicadamente, empurrava-a para a porta. --V. Fernanda. Lute!
O tempo passou como numa embriaguez, mas o trnsito, no sentido contrrio aos
bairros, no estava to ruim. Ao lado de Fernanda, apertando seu brao, dando-lhe
foras, Graziela parecia uma mulher. Madura, segura do que estava fazendo, orgulhosa
de poder faz-lo. Foi um guia de cego. Fernanda deixou-se conduzir docilmente.
Nunca antes estivera na Cidade Universitria. Graziela tinha um mapa desenhado por
dona Teresinha e a conduzia com segurana. O prdio do Departamento de Letras
dividia-se em dois por um ptio ao ar livre onde muita gente circulava e banquinhas de
vendedores de livros enfileiravam-se uma ao lado da outra. Na porta do prdio da
direita, um rapaz procurava um espao para atravessar um grupo que conversava,
atrapalhando a entrada.
"Bruno!"
Sentiu a mo de Graziela uma ltima vez apertando-lhe o brao.
-- Pode deixar que eu volto sozinha, Fernanda. Vai l.
-- Como?
-- Vai l, boba!
Correu sem se voltar, deixando a amiga para trs. No pensava, no temia mais dor
alguma. Viesse o que tinha de vir, acontecesse o que tinha de acontecer. Ela queria
Bruno. Haveria de atravessar o rio sozinha, haveria de chegar  margem dele; haveria
de anular a largura do rio.
Forou a passagem atravs do grupo que obstrua a porta e entrou no saguo do
prdio a tempo de ver Bruno afastando-se de costas ao longo de um corredor.
--      Bruno!
O rapaz parou e virou-se.
Fernanda continuou andando em sua direo. quela hora, o congestionamento de
estudantes provocava a situao exatamente oposta  privacidade que Fernanda
precisava para dizer o que tinha a dizer. Assim, teve de falar alto. Se algum ouvisse,
tudo bem. Se algum estranhasse, azar desse algum!
Chegou-se muito prxima a ele. Estava excitada e decidida demais, mas no o
tocou.
--      Bruno, meu querido, sabe de uma coisa? Estive pensando naquele problema de
matemtica. Se a diferena fosse de catorze anos, quando o "eu" tiver cento e
catorze, o "tu" ter cem. A, ningum vai se importar muito com essa diferena, no
?
Os olhos do rapaz umedeceram-se. Algum, passando por trs, empurrou-o e Bruno
apoiou as mos nos ombros da garota. Fernanda tomou-lhe uma das mos e levou-a
aos lbios, beijando-a fervorosamente.
-- Fernanda! Fernanda! Cem anos? Cento e catorze anos? Querida, minha menina
querida! Se esse problema fosse conosco, se o "eu" fosse eu e o "tu" fosse voc, ainda
faltariam noventa e seis anos para esse dia!
-- Ento ns temos noventa e seis anos para experimentar se vai dar certo, no ,
Bruno? Eu quero experimentar. E voc?
--  o que eu mais quero no mundo, Fernanda...
As pessoas que se aglomeravam naquele corredor no pareciam ter tempo para
estranhar aquele casal, e muito menos o modo apaixonado com que se olhavam, se
devoravam, se consumiam, se entregavam...
Mas os dois sabiam que, dali para a frente, certamente haveria gente que estranharia,
que acharia impossvel aquele amor.
Idades muitos distantes, no ? Mas um amor to prximo, to intenso, to
intenso amor ...




                                       Fim



Crditos e Agradecimentos

 Renata Sara 


Comunidades


Tradues e Digitalizaes

http://www.orkut.com.br/Community.aspx?cmm=20985974


Ebooks de A  Z

http://www.orkut.com.br/Community.aspx?cmm=47749604
Quem  Pedro Bandeira

Pedro Bandeira nasceu em Santos, em 1942, e vive em So Paulo desde 196l.
Estudou Cincias Sociais, foi ator de teatro, editor, publicitrio e jornalista at
dedicar-se somente  literatura infantil e juvenil desde 1983. Suas obras para a
juventude so estas: O fantstico mistrio de Feiurinha, Minha primeira paixo
(tambm uma histria concluda por Pedro Bandeira a partir de anotaes
deixadas pelo falecimento da autora Elenice Machado de Almeida), A marca de
uma lgrima, Agora estou sozinha, Mariana, O mistrio da fbrica de livros,
Brincadeira mortal, Descanse em paz, meu amor, Prova de fogo, O grande
desafio. Gente de estimao, O medo e a ternura, Na colmia do inferno e a
srie com o grupo dos Karas: A droga da obedincia, Pntano de sangue, Anjo
da morte e A droga do amor.



Escritor no morre nunca...

Carlos -- Queiroz, como todos o chamavam -- nasceu quatro vezes. A primeira,
l pelos idos de 1936, na primeira metade do sculo XX, como ele mesmo dizia;
a segunda, ao renovar seu corao com as pontes de safena; a terceira, ao
encontrar Rita, seu jovem e delicado amor; a quarta, quase no finalzinho do
sculo XX, precisamente em 1997, quando este seu livro -- seu to sonhado
Amor impossvel possvel amor -- nasce pelas mos de Pedro Bandeira.
Gabriel, seu filho mais velho, Tiago e Tais, da me Rita, no poderiam estar
ausentes neste renascimento to esperado.


Obras publicadas -- infanto-juvenis

O ninho dos morcegatos, Carvalhosa Auau, Rodovalho Miau, A teia de
Penlope Aranha, A vida acidentada de um vampirinho, Draculinha, um astro
em Hollywood, Draculinha no Pantanal, Frias na Draculndia, Na prxima
eleio, vote no Draculo--estes cinco em co-autoria com Enas Carlos
Pereira --, Ai que preguia! , O caador solitrio, O tatu garimpeiro, Z Pretim,
Seu Crispim, Luizim e o cachorro Porreta e Samurai, o vira-lata ninja, pela
Editora FTD; O agente Meia Meia Miau, Sonhos, grilos e paixes. Os amantes
da chuva, Quase cachorro, quase menino, Sementes de sol, O rock das
estrelas, Asas brancas, O menino das canecas, Abobrinha quando cresce , A
cama que sonhava e Anhemby pi, Tiet menino, pela Editora Moderna; O
piriampo telegrafista, Nossos bichos na TV, Tem bicho no parquinho, O trem da
bicharada, 0 vo da bicharada e A lenda da pedra grande, pela Editora
Scipione; Lagarto Azule A estranha estrada de alhures, pela Editora Formato;
Click, click, mil sorrisos e um chilique, pela Editora Vozes.
